Feio, porco e mau

O melhor que podia acontecer hoje a Hillary era ser alvo de um ataque pessoal soez por parte de Trump que expusesse a total desadequação do republicano face às prioridades dos americanos e repelisse, de uma vez por todas, o eleitorado feminino que não morre de amores por Hillary

No momento em que Barack Obama atingiu a taxa de aprovação mais alta neste segundo mandato, Trump e Clinton regressam ao despique televisivo. Aparentemente, os dois assuntos não têm uma relação direta, mas se virmos o primeiro debate como um travão na dinâmica ascensional de Trump chegamos à conclusão de que Hillary não pode desvalorizar as pontes com Obama e sobretudo com Michelle, bastante mais popular do que o atual presidente. E que ponte é essa? Focar-se nos eleitores entre os 18 e os 34 anos, que são cerca de 75 milhões, e que em 2012 estiveram maioritariamente com Obama (67%), e no imenso eleitorado feminino (53% do total na última eleição).

Até agora, Hillary Clinton só conseguiu a adesão de 40% dos mais jovens, muito por culpa do desgaste das primárias democratas - onde foi evidente o entusiasmo dessa geração com as mensagens de Bernie Sanders - mas também porque o voto de protesto contra os dois grandes partidos tem levado muitos a inclinarem a sua preferência pelo libertário Gary Johnson e pela ecologista Jill Stein. Se Clinton quiser descolar de Trump a partir do debate desta madrugada, tem de afinar as propostas para esses eleitores, encostando à esquerda nas críticas ao sistema financeiro, apontando reformas ao financiamento partidário, defendendo restrições ao envolvimento militar no exterior, endurecendo o discurso sobre o uso e abuso do porte de armas e o livre acesso a material de guerra, articulando soluções para desonerar as famílias dos custos com a educação, ou manifestando uma preocupação ambiental que seja simultaneamente estratégica e geradora de empregos.

De uma coisa podemos estar certos: Hillary não vai cativar nenhum eleitor embevecido com Trump, mas precisa de trazer para a sua órbita aqueles que, não confiando nela, podem votar útil só para não ver Trump na Casa Branca. Para isso acontecer, vai ser fundamental que os jovens e as mulheres sejam os depositários das principais mensagens deste segundo debate. Por um lado, são os setores mais importantes da plataforma democrata que deu as duas vitórias a Obama (a par das minorias afro e latina) e os que mais rapidamente confirmarão nas sondagens a sustentabilidade da ultrapassagem feita por Clinton a Trump em vários dos swing states que decidirão as presidenciais, como o Ohio, a Pensilvânia, a Virgínia e a Carolina do Norte. Por outro lado, dado que o formato deste segundo debate implica que metade das perguntas venham da plateia, Clinton pode aproveitar para dirigir mensagens personalizadas a mulheres, jovens e minorias étnicas que melhor a sintonizem com o americano comum e lhe deem um traço de maior proximidade com os problemas concretos das pessoas. Se parte da vantagem de Trump tem passado pela presença constante junto das comunidades que lhe interessa segurar, Hillary precisa de quebrar o gelo entre os muitos que continuam a vê-la como uma política palaciana de Washington mais fiel a interesses mesquinhos do que a problemas reais. Aparte isso, o melhor que podia acontecer-lhe hoje era ser alvo de um ataque pessoal soez por parte de Trump que expusesse a total desadequação do republicano face às prioridades dos americanos e repelisse, de uma vez por todas, o eleitorado feminino que não morre de amores por Hillary. Isto até 2005 ter batido à porta do Donald.

O vídeo publicado pelo The Washington Post e que abafou a libertação de 20 mil e-mails de John Podesta (diretor de campanha de Clinton) com origem na WikiLeaks, parece confirmar a impossibilidade de qualquer mulher indecisa nesta fase vir a atribuir o seu voto a Trump em novembro. Mas isto não significa que endossem Clinton sem pestanejar. Hillary precisa de vencer todas as questões suscitadas no debate que digam respeito às prioridades das mulheres em presidenciais (emprego, saúde e educação) e deixar que Trump tropece nas suas próprias armadilhas. Nos estados decisivos em novembro, 25% eleitores da Carolina do Norte são afro--americanos e 56% mulheres, 35% são minorias étnicas na Florida e 55% mulheres, 30% são minorias na Virgínia e 53% mulheres, enquanto 52% são eleitoras na Pensilvânia e no Ohio. Claro que isto não quer dizer que a vantagem democrata seja instantânea, basta lembrar que Mitt Romney venceu na Carolina do Norte em 2012 e perdeu nos outros por uma margem curta, conquistando aliás a esmagadora maioria dos círculos eleitorais em cada um desses estados.

Mas Romney não é Trump nem o GOP de 2012 é aquele que está, de venda nos olhos, atrás de Donald em 2016. O que Hillary precisa de fazer neste mês que resta é vencer novamente o debate de hoje para descolar de vez, passar as mensagens certas nos estados decisivos, misturar-se com as pessoas e envolver Michelle Obama nas principais iniciativas de campanha. Se há quatro anos Bill Clinton foi crucial a Obama para relembrar a América próspera e pujante da década de 1990, a popularidade de Michelle motivará o registo antecipado dos afro-americanos, latinos, jovens e mulheres que só querem ver Trump no sítio de onde nunca devia ter saído: a sua torre de marfim na 5.ª Avenida.

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