Evitar o Isistão

Kadhafi nasceu e morreu em Sirte, mas quem lá manda hoje é o ISIS. Estamos todos a olhar para a Síria mas há dias Obama pediu ao National Security Council informações sobre uma extensão dos bombardeamentos à Líbia. Isto é a continuação da "guerra ao terror" de Bush com outros meios: drones em vez de tropas. A principal preocupação? Que os bombardeamentos não tenham ação paralela na estabilização das zonas não controladas pelo ISIS. A vantagem da Líbia em relação à Síria é não ter a teia de interesses divergentes entre grandes potências, a desvantagem é não estar dotada de orgânica estatal enraizada que permita partir daí para a reconstrução do país. Mais do que para os EUA, a Líbia é um desafio estratégico para a UE, que devia assumir mais responsabilidades. Primeiro, os europeus têm mais interesses em risco, desde a relação comercial à energética, passando pela diabólica rota migratória mediterrânica. A UE precisa, por isso, de estar presente na formação da decisão de uma missão anti-ISIS na Líbia, para não ser vítima dos erros cometidos pós-Kadhafi e da falência da coordenação entre a missão militar (NATO) e uma de estabilização (UE). Além disso, precisa de manter vivo o plano da ONU, envolvendo outras partes nas soluções de poder e repartição de riqueza. Pode ser aglutinadora se agir de forma institucional em vez de ser encabeçada por Estados com interesses evidentes na Líbia. A UE tem à sua disposição, até pela proximidade geográfica, mas sobretudo pelo perfil de honest broker, instrumentos capazes de dotar a Líbia de um roteiro onde várias dimensões possam ser integradas com lógica, da inclusão tribal ao auxílio à administração local, da diversificação económica à formação policial, do combate à economia paralela à inclusão da mulher no processo político. Será sempre demorado mas nada é pior do que a situação a que se chegou.

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À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

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João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

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Lar de Dresden combate demência ao estilo Adeus, Lenin!

Uma moto, numa sala de cinema, num lar de idosos, ajudou a projetar memórias esquecidas. O AlexA, na cidade de Dresden, no leste da Alemanha, tem duas salas dedicadas às recordações da RDA. Dos móveis aos produtos de supermercado, tudo recuperado de uma Alemanha que deixou de existir com a queda do Muro de Berlim. Uma viagem no tempo para ajudar os pacientes com demências.

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Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.