Ética e responsabilidade

Há políticos com uma ambição desfasada da realidade que têm em mãos. O mandato que Puigdemont anunciou como sendo um salvo-conduto a uma independência desejada, coesa, indisputada e blindada de riscos pura e simplesmente não decorre do referendo de 1 de outubro. Primeiro, não teve base legal interna. Segundo, os números não podem ser verificáveis de forma séria e independente. Terceiro, decorreu sob capa e espada. Quarto, não teve reconhecimento internacional nem a UE prevê qualquer acomodação jurídica a um independentismo feito à bruta e contra o Estado membro. Quinto, a economia reagiu em massa, como já o tinha feito antes da ida às urnas, contra um processo radicalizado e permeável a riscos sem definição jurídica, embora cheia de indefinição política. Por fim, não só quase 60% dos catalães não foram votar como a sociedade permanece partida entre independentistas unilaterais, independentistas pactados e reformistas constitucionais. O que se passou nas ruas de Barcelona na última semana provou que a coesão social em redor de Puigdemont é pura ilusão. Ou seja, o mandato é fraco, duvidoso e não reforça a frente encabeçada pela Generalitat.

Puigdemont veio assim tentar dourar o mandato e colocar-se como terceira via.

Ao passar a bola a Rajoy, quis dar a ideia de que é ele e não a CUP quem lidera o processo catalão, e que sempre existe dentro do independentismo alguém com uma dose de sensatez que merece atenção. No fundo, que representa a última hipótese para uma solução política. Apesar de ser um perfil tardio e nada crível, Puigdemont sabe que Rajoy não esbanja flexibilidade aos domingos, e que são praticamente nulas as escapatórias de que dispõe, para além de levar a Constituição aos limites. O mesmo é dizer que, além do confisco da autonomia e da representatividade dos seus atores políticos e institucionais (artigo 155), este estado de exceção, único na história democrática espanhola, pode requerer outros níveis de aplicação da ordem e da lei com recurso à força (artigo 116). Ora, se a fidelidade à Constituição tem sido o racional de Rajoy em todo este longo processo, não há razão para pensar que a entourage que lhe tem dado cobertura tire agora um coelho da cartola. Do ponto de vista económico, social e reputacional, as implicações desse roteiro jurídico podem afundar a Catalunha numa espiral de risco permanente. Mesmo que seja balizado a curto prazo, terá certamente uma contrarresposta violenta por parte daqueles que se viram negligenciados e desprezados nas suas reivindicações. Qualquer dos cenários é terrível, mas nenhum está afastado.

O que me parece ter sido o objetivo de Puigdemont foi levar Rajoy a fazer tudo isto à risca. Dessa forma, arregimentaria todo o quadro emotivo catalão, prolongaria a frente independentista no tempo e fomentava a vitimização em larga escala. Se em parte resultou com a carga policial no dia do referendo, imaginemos como não seria durante semanas. É aqui que podem entroncar outros dois possíveis propósitos, na lógica de Puigdemont. O primeiro é aceitar eleições antecipadas na Catalunha, como é objetivo de Madrid, embora com cálculos diferentes. Se o governo espanhol tem a esperança de que os danos causados pelos independentistas unilaterais possam ser traduzidos na votação, mudando assim os interlocutores, o governo catalão vê a força e o manancial de erros que Rajoy pode vir a cometer como um boomerang que irá beneficiar a atual frente. Vale a pena lembrar que, a todos os argumentos enunciados sobre a fragilidade do mandato e da coesão em redor de Puigdemont, acresce a condição natural do governo catalão emanada das eleições de 2015, apenas com 47% dos votos. O que Puigdemont precisa para ir até ao fim desta contenda é de uma legitimidade reforçada em eleições. Para isso precisa de criar as condições certas para delas beneficiar e, na sua perspetiva, será Rajoy a prepará-las.

A verdade é que todo este quadro, não sendo impossível, é rocambolesco. Para não variar, cava a perceção dos cidadãos um pouco por toda a Europa sobre a total incapacidade de os políticos chegarem a soluções negociadas com o mínimo de responsabilidade. De um lado da mesa, um primeiro-ministro envolto demasiado tempo numa nuvem de corrupção pela qual passou pelos pingos da chuva; do outro, um estouvado sem capacidade política. Como é que se podem subir os níveis de confiança e não deixar os Iglesias, as Le Pen e os Grillos à solta? Como é que fica a reputação de uma classe política inteira quando um primeiro-ministro é acusado de enriquecimento ilícito de milhões antes e durante um processo de bancarrota nacional? Basta percorrer com algum detalhe analítico alguns países da UE na sua zona leste e sudeste para percebermos o cancro alastrado que é a corrupção de Estado. Noutras paragens, a lei ou o seu vazio favorecem com diferentes graus uma teia entre cargos políticos, financeiros e empresariais, sem qualquer cautela para a reputação futura do exercício da política. Estive nesta semana entre Praga e Viena (ambas com eleições à porta) e a raiva antipolíticos continua a ser o mantra destes tempos europeus, mesmo que checos como austríacos tenham uma saúde económica invejável e estejam a roçar o pleno emprego.

Os europeus querem dinheiro no bolso, estabilidade profissional e qualidade de vida, mas querem mais do que nunca outra ética no exercício político e um sentido de seriedade na busca por compromissos. Nem Puigdemont nem Rajoy encaixam no figurino.

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