Entre Pinochet e Maduro?

O grande dilema da América Latina é oscilar permanentemente entre populismos e mão-de--ferro, sem um meio-termo que percorra uma saudável convivência política, crescimento sustentável e diversificação económica, coesão social, transparência e respeito pela separação de poderes. Os ocasos brasileiro e venezuelano agravaram esta perceção, com a dificuldade acrescida de olhar para as alternativas com credibilidade. O que mais sobressaiu foi a tomada de consciência popular - mesmo entre os beneficiários das políticas sociais desses governos - cada vez mais intransigente com a eternização no poder (rejeição em referendo da extensão de mandato de Evo Morales), corrupção generalizada (hostilidade ao sistema partidário brasileiro) e falência da gestão económica (censura ao regime venezuelano ou ao kirchnerismo argentino). Até Cuba, com a mão de Obama e do Vaticano, percebeu o seu anacronismo e antes que o povo saísse à rua tratou de o contentar. Mas a verdade é que nem toda a esquerda é pouco recomendável ou geradora de caos, e o Chile e o Uruguai são bons exemplos. No primeiro caso, a social--democracia de Bachelet foi reformista e construiu pontes com o mundo em vez de o hostilizar, fechando o primeiro capítulo da transição pós-ditadura com o país mais próximo das democracias europeias do que das latino--americanas. O mesmo tem acontecido ao Uruguai. Na última década cresceu em média 5,4% ao ano e ergueu uma democracia assente na estabilidade política, social e na abertura económica. Está hoje em primeiro da tabela regional sobre Estado de direito, solidez institucional e baixa corrupção. As doze zonas francas atraíram mais de 800 empresas estrangeiras e o ambiente de negócios convive com a governação de esquerda. Como é hábito, no meio fica a virtude. A América Latina não tem de estar condenada a optar entre Pinochet e Maduro.

Investigador universitário

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