Entre duas voltas

Passou, sem deixar qualquer rasto na imprensa europeia, a visita do senhor Schäuble a Washington no passado dia 20 de abril. Convidado de honra do Carnegie Endowment for International Peace, o ministro das Finanças alemão apresentou as suas ideias sobre o momento da relação transatlântica, da crise europeia e as prioridades do G20, atualmente sob presidência da Alemanha e com uma cimeira marcada para julho em Hamburgo. Às tantas, sobre o comércio entre os EUA e a UE, Schäuble disse duas coisas que mereciam bem mais do que um apagão mediático do lado de cá: primeiro, "o TTIP não está morto, mas precisa de ser simplificado e de ter mais transparência"; segundo, "fomos todos muito ambiciosos e complicativos para o fazer entender".

Três dias depois, a comissária europeia para o Comércio, Cecilia Malmström, foi a Washington reunir-se com o secretário americano do mesmo pelouro, Wilbur Ross, sobre o estado das relações comerciais e medir o pulso à sensibilidade da administração. Como temos visto por estes primeiros cem dias, encontrar uma linha coerente em Trump nas várias políticas públicas é um dos exercícios mais desafiantes para qualquer analista profissional. Num curto espaço de tempo já o ouvimos querer rasgar o NAFTA, embora hoje já seja reformável; decretar a NATO como obsoleta e tecer-lhe, dias depois, juras de amor; olhar para Pequim como um inimigo e exultar com a "grande química" sentida por Xi Jinping; querer implodir o Obamacare e acabar por ser vergado por ele e pela sua bancada; fazer uma campanha sob o espectro da taxação de importações e acabar por esquecê-la no primeiro pacote fiscal que apresenta. E, num sentido, mais lato, afirmar uma revisão unilateral de todos os acordos comerciais em vigor, para acabar por aceitar grande parte dos seus termos. A visita de Malmstrom tem, por tudo isto, o mérito de procurar antecipar tendências, identificar interlocutores de primeira e segunda linha tanto na administração como no Congresso, e prova que ainda há políticos na Comissão com alguma sensatez e talento.

Mas mais. No dia seguinte a este encontro, Wilbur Ross deu uma entrevista ao Financial Times em que, entre outros aspetos, tocou em três pontos importantes do debate comercial transatlântico e da economia americana. Primeiro, abriu a possibilidade de retomar as conversações com a União Europeia (UE), mas num quadro de revisões comerciais mais lato em que se inclui o Japão e a China. Segundo, mostrou algum pragmatismo quando referiu ser incompreensivelmente oneroso à indústria americana ter de exportar um automóvel para a Europa com uma taxação à qual o mesmo produto com origem no México não está sujeito, pelos méritos da assinatura de um acordo de livre-comércio com a UE. E terceiro, reafirmou ser prioridade da administração reduzir o défice comercial com a China (347 mil milhões de dólares), com a UE (146) e com o Japão (69). Não é a posição de Washington que é nova, é a formulação de uma arquitetura mais holística de renegociação das relações comerciais, com a Europa incluída, que merece atenção acrescida em Bruxelas, mas sobretudo em Paris e Berlim. Porquê? Por duas razões: por um lado, desse montante deficitário, a maior fatia (65 mil milhões) resulta da relação com a Alemanha, cada vez mais o centro privilegiado do diálogo europeu para Washington, ainda para mais com o brexit no horizonte; por outro, pela pressão que os americanos fizeram para que constasse das conclusões da reunião da primavera do FMI um alerta firme contra os países com excedentes orçamentais, como é o caso da Alemanha, com manifestas vantagens competitivas no quadro comercial e económico euro-atlântico. Porque é que isto é importante para Paris? Como lembrou há dias Wolfgang Münchau, porque Washington pode vir a pressionar com outro vigor o futuro presidente francês de forma a encostar Berlim às cordas. Se o interlocutor for Le Pen, o cenário de alarmismo na zona euro obrigará Berlim a arcar sozinha com o peso do futuro da moeda única, se a quiser salvar. Com mais ou menos constrangimentos constitucionais e políticos, não parece que Le Pen derrame uma lágrima pela implosão da integração europeia. Se o interlocutor for Macron, então isso coloca Paris sob uma dupla pressão: a de Washington, no sentido já descrito e com o foco na Alemanha; e a de Berlim, enquanto eixo que vai necessariamente ser obrigado a assumir outras responsabilidades mais equitativas no quadro do brexit e do roteiro da união económica e monetária defendido por Macron.

É aqui que entra o comércio livre. Se Macron for eleito, a chancelaria se mantiver com Merkel e Malmström insistir (e muito bem) numa arquitetura de acordos comerciais atlânticos concluídos nos próximos doze meses (além do assinado com o Canadá, os que estão em cima da mesa negociar com o México e com o Mercosul), pode haver algum espaço para olhar para o TTIP novamente - provavelmente com outro nome, de forma parcelar, simplificada, mais transparente e apresentado de outra forma - como o elemento jurídico que falta para tornar toda a bacia atlântica no espaço estratégico prioritário para a Europa. Dessa forma, o Atlântico seria a geografia-charneira da regulação comercial, dos padrões aduaneiros, das regras e dos dispositivos normativos da economia internacional, de acordo com os padrões das democracias ocidentais. Independentemente de este horizonte estar mais ou menos próximo, Lisboa e Madrid têm nesta geografia uma vantagem competitiva em relação a todos os países da UE, o que lhes dá outro posicionamento nos debates comunitários e um certo desígnio conjunto estratégico. Macron e Merkel podem bem vir a ser a dupla que a UE precisa, mas é a Espanha que continua a ser "a nossa política externa permanente".

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