Em busca do tempo perdido

Dos 57 países visitados por Obama nos oito anos de mandato, quer em incursões bilaterais quer como palcos de cimeiras alargadas, 35 são europeus. Se quisermos ser mais precisos e olharmos para os quatro países mais visitados nos dois mandatos, concluímos que a França, a Alemanha (ambas seis vezes), o Reino Unido (cinco) e a Polónia (três) mereceram atenção prioritária da administração. Se aprofundarmos, por exemplo, os dados do investimento direto americano no mundo, podemos também verificar que 56% têm como destino a Europa. Em sentido inverso, o investimento direto europeu representa 74% de todo o investimento estrangeiro nos EUA. Só em 2014, os EUA investiram na Holanda o quádruplo do que canalizaram para todos os BRICS juntos e os proveitos das empresas americanas na Europa ultrapassaram os resultados conjuntos na América Latina e na Ásia. Na segurança, Washington não só manteve o compromisso com a NATO como esta regressou à frente Leste com novas bases permanentes e mais tropas estacionadas. Falar por isso numa total desatenção da administração Obama aos assuntos europeus é uma falsidade, o que não quer dizer que o modo e o tempo em que a sua influência foi projetada na Europa não mereça uma análise crítica assertiva. As visitas a Atenas e a Berlim desta semana são disso prova evidente.

A primeira avaliação negativa vem do facto de Obama ter ido à Grécia pela primeira vez no final do mandato. A quem defendia uma visão tão distinta da receita aplicada à hecatombe financeira e social grega pedia-se uma presença muito mais ativa no debate da zona euro e uma outra capacidade de moldar a ortodoxia aplicada a Atenas. É verdade que Washington alertou timidamente em tempos para o facto de a Alemanha ter um excessivo modelo exportador, estar em incumprimento com as regras por ultrapassar o teto de acumulação de excedentes externos, condicionar a recuperação dos países em situação-limite, e de não desenvolver o mercado interno liberalizando o setor dos serviços. Jack Lew, o secretário do Tesouro, afirmou várias vezes a necessidade de se adotar uma posição mais flexível sobre a dívida grega, falando mesmo, no início do verão, na sua reestruturação. Obama, por estes dias em Atenas, mencionou mesmo um perdão da dívida como uma das fórmulas desejáveis. Ou seja, não se pode dizer que a administração americana não tenha tomado posições sobre a linha preferencial dos credores ou em solidariedade com algumas das queixas dos devedores, mas a verdade é que nunca foi audível o suficiente para moldar o curso da história nem persistentemente sólida para inverter os fracassos entre as partes. Por isso a viagem à Grécia peca por tardia, fragilidade estratégica e demissão política. Não sendo em rigor um vazio interpretativo, constituiu um desleixo grave que pode custar, em último grau, a oficialização da desagregação comunitária e a erosão dos EUA como grande potência determinante no Ocidente.

Já a visita a Berlim encerra uma perceção de alarme mais alargada. Se a questão grega nunca foi mencionada em público por Obama - o que reforça o meu argumento sobre a sua incapacidade de afirmar uma voz liderante no debate económico europeu -, a relação bilateral com a Alemanha foi descrita em termos magnânimos: o melhor parceiro transatlântico que a administração teve e o mais proveitoso eixo comercial entre dois países em todo o mundo. Além disso, Obama valorizou a consolidação democrática alemã feita no interior da UE e da NATO, o que implicitamente significa que a implosão das duas pode inverter essa natureza de regime. Vale a pena dizer que este raciocínio é igualmente válido para países como Portugal e Grécia, por exemplo, que devem a maturação das suas democracias à integração comunitária. No resto, a visita a Berlim motivou uma declaração conjunta em defesa do comércio livre e do atlantismo alemão, os quais merecem duas leituras premonitórias.

A primeira é que o comércio livre como pilar das democracias liberais está em risco perante a internacional trumpista que se vai organizando. Com Obama fora de cena, será Merkel quem terá de assumir o estatuto de líder do "mundo livre", um fardo que nenhum político alemão quer carregar sozinho. A segunda é que o atlantismo alemão (preferencialmente sustentado na atual "grande coligação") é a única garantia de que a continentalização europeia pós-brexit se faz com os EUA e não contra os EUA. Isto é particularmente importante num quadro de erosão da coesão interna na UE, de agressividade russa acelerada, e do previsível unilateralismo caótico da administração Trump. Mais uma vez, a Alemanha não tem instrumentos de segurança, software poder e nem um debate interno consolidado que lhe permita assumir o peso da responsabilidade ocidental pós-Obama, o que acentua a crise transatlântica que se avizinha num ciclo eleitoral tremendista em 2017.

Obama nunca aproveitou a popularidade que sempre gozou na Europa para projetar influência benigna nas várias crises que a devastam. O custo está à vista. Desconfio que mesmo quem um dia quis ver Merkel cair da cadeira, ainda vai torcer para que ela vença um quarto mandato.

Investigador universitário

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