E agora, May?

O pior que os Estados membros e a Comissão podem fazer agora é bullying sobre Theresa May

Há eleições em que não chega ganhar, é preciso fazê-lo avassaladoramente. Este era o objetivo de Theresa May quando em abril fez quatro avaliações de momento. A primeira, uma enorme distância para os trabalhistas nas sondagens. A segunda, a absorção da agenda do UKIP e consequente transferência de votos. A terceira, responder ao anúncio de Nicola Sturgeon para um novo referendo à independência escocesa. Por fim, chegar à primeira ronda negocial do brexit (dia 19 deste mês) com legitimidade e autoridade reforçadas. Destas quatro avaliações, só a terceira lhe correu bem.

O SNP foi o partido que mais deputados perdeu em Westminster e o roteiro independentista ficou congelado sine die. A unidade do Reino Unido deixou de ser, num horizonte próximo, uma dor de cabeça para Downing Street. Aliás, o acordo com os unionistas da Irlanda do Norte (DUP) também pode acalmar os muitos anseios sobre a "unidade irlandesa", dado que o novo parceiro de Theresa May quer negociações para o brexit que evitem onerar as transações aduaneiras entre as Irlandas e não dificultem a livre circulação de pessoas. É por isso que, à partida, as reivindicações do DUP favorecem um caminho mais distendido com Bruxelas e não o cenário, ao fim dos dois anos de negociações, em que os tratados deixem de vigorar no Reino Unido sem nenhuma escapatória sensata ou um acordo que salvaguarde as pretensões unionistas. Ou seja, no curto prazo, tanto a independência da Escócia como a unidade irlandesa estarão congeladas. A situação escocesa pode, aliás, contribuir para que os catalães que querem seguir um caminho à revelia de Madrid e de Bruxelas acalmem as suas pretensões, dado não terem para já um exemplo acomodatício em velocidade semelhante.

No resto, a senhora May falhou em todas as avaliações que fez. Jeremy Corbyn foi desvalorizado por quase todos (assumo a minha quota parte) e no despique de personalidades ganhou momentum à medida que May tropeçava nas propostas sociais, na responsabilidade em cortes na segurança interna perante três ataques terroristas desde março, e numa incapacidade em chegar aos eleitores com menos de 24 anos que foram às urnas em massa ao lado dos trabalhistas. Theresa May também não contou que muitos eleitores do UKIP votassem no Labour, como aconteceu em Newcastle ou Hartlepool. Para isso terá contribuído o crónico euroceticismo de Corbyn (para não dizer outra coisa) e a perceção de muitos eleitores nacionalistas de uma consistência confiável na posição do trabalhista. Para esses, Theresa May não tem pedigree anti-Bruxelas e pode vir a sofrer pressões para mudar de rumo. Por fim, ao perder autoridade no partido conservador, ao ter reduzido a maioria conservadora em Westminster e ter apostado num resultado acima das suas capacidades, chega a Bruxelas com uma margem praticamente nula para impor uma linha de intransigência ou mesmo ameaçando com um não acordo.

Além da resolução temporária do dilema da unidade do Reino Unido, a outra grande questão que resulta destas eleições expõe um aparente paradoxo. Por um lado, houve um reforço do bipartidarismo pró-brexit, dado que 82% votaram em dois partidos que no essencial não divergem no roteiro de separação com a UE. Por outro, esse reforço não dá à primeira-ministra mais força em Bruxelas, embora a agarre a um processo negocial mais produtivo do que se previa até aqui, tendo em conta que a sua sobrevivência política resulta do encarrilamento das conversações com Bruxelas. Por outras palavras, pode sair desta eleição um brexit menos duro e um Reino Unido mais ciente da gestão contínua de riscos que imperativamente tem de fazer. Até porque eles são visíveis.

Como tenho trazido a esta coluna, a performance económica do Reino Unido não se recomenda desde o referendo de junho de 2016. Foi mesmo a pior entre todos os Estados membros no primeiro trimestre deste ano. Dublin, Frankfurt, Amesterdão e até Varsóvia estão já na linha da frente para aproveitar a deslocação de grandes bancos e serviços financeiros londrinos, setor que representa 8% do PIB britânico e 30% das exportações. A atmosfera pós-referendo tem sido tóxica para o Reino Unido, aproximou-o de uma predisposição isolacionista prejudicial ao investimento e à captação de capitais, de uma inflação sustentada, do espectro de incomportáveis custos aduaneiros sem acordos comerciais com a UE ou terceiros, e tornou mais difícil a vida às comunidades imigrantes através da disseminação do discurso do ódio e de um quadro de redução abrupta de direitos laborais e sociais. O político inglês que disser internamente ou em Bruxelas que este é um quadro de força negocial, mente.

Acresce que em Paris foi eleito um presidente pró-integração, comércio livre e globalização, cujo partido se prepara para um resultado histórico nas legislativas que hoje começam (segunda volta a 18 deste mês). Em Berlim, Angela Merkel tem consolidado ascendente nas sondagens, em resultados regionais e no papel de guardiã do Ocidente liberal. Se a continentalização da política europeia já era um dado adquirido com o brexit, ela está balizada num eixo com uma dupla legitimidade reforçada nas negociações em Bruxelas e na influência sobre a Comissão: democrática e liberal. Ainda assim, o pior que os Estados membros e a Comissão podem fazer agora é bullying sobre Theresa May. É verdade que a tentação está lá, mas também é real que o relógio está a contar até março de 2019, e nenhum Estado com dependência económica do Reino Unido (como França e Alemanha) querem um efeito boomerang estrondoso. O espectro de um desastroso brexit pode resultar num acordo de conveniência para todos.

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