Draghi, outra vez

Mario Draghi e Sergio Mattarella são as personagens principais do enredo italiano depois da colossal derrota de Matteo Renzi há uma semana. O presidente do Banco Central recusou adiar a recapitalização do Monte dei Paschi de forma a acelerar a intervenção financeira do Estado italiano para reduzir os danos sistémicos nas necessárias operações de recapitalização do Unicredit e do Intesa. E o alarme justifica-se, dado que o total de crédito problemático (360 mil milhões de euros) é equivalente a quase o dobro do PIB português. Se, por um lado, essa decisão acalma os mercados e estabiliza o euro, por outro pressiona a formação rápida de um executivo de transição, capaz de pôr em prática essa operação, evitando assim recorrer para já a eleições antecipadas. A decisão do BCE é financeira, mas tem um evidente cunho político: uma corrida às urnas na ressaca deste referendo pode inviabilizar toda a gestão de danos no sistema bancário e abrir a porta à vitória dos partidos antimoeda única. Neste cenário, lidar com a terceira economia da zona euro ao longo do decisivo ano de 2017 é uma tarefa praticamente impossível para quem lidou, como lidou, com uma economia do tamanho da grega.

É importante notar que, ao contrário do referendo no Reino Unido, onde os eleitores entre os 18-40 anos votaram pela manutenção na UE, em Itália essa faixa etária rejeitou a reforma constitucional e pode, facilmente, legitimar a cartada antissistémica de Beppe Grillo numa atitude de esgotamento face aos 40% de desemprego que a assola. O potencial de desintegração do centro político é, por isso, enorme com eleições antecipadas em cima de uma anarquia no processo de solvência dos grandes bancos italianos.

Já o presidente da República assumiu o perfil dos recentes chefes de Estado: pilar do institucionalismo, serenidade no meio da incerteza, gestão do tempo e do timing de acordo com o momento que o país e a Europa atravessam. Deu espaço à decisão do BCE, num reconhecimento claro da prioridade dada à estabilidade do sistema financeiro. Temporizou para perceber as condições que existem na atual maioria parlamentar para indigitar alguém que assegure os trabalhos políticos sem sobressaltos no quadro desse apoio. E vai certamente auscultar Berlusconi para perceber se há pontes possíveis com o governo para a aprovação de uma nova lei eleitoral absolutamente necessária, depois do chumbo à reforma constitucional ter inviabilizado os termos em que foi aprovada em 2015.

Um dos problemas que o sistema político italiano carrega está bem expresso neste processo de consultas que Mattarella está a fazer. São perto de quarenta os partidos e pequenas coligações representadas no Parlamento que estão a ser ouvidos, cada um defendendo a generosa coutada de poder e influência que as regras eleitorais lhes concedem, muitos deles sem qualquer diferenciação ideológica que justifique tal fragmentação, mas certamente enredados nas teias de egos que não permitem outra coisa que não vários galos para os mais de seiscentos lugares nas duas câmaras parlamentares, ainda por cima com peso igual no processo legislativo. Além disso, os esquemas constantes para assegurar favores políticos, contrapartidas e perpetuação nos cargos, leva a uma constante e degradante troca de partidos políticos numa autêntica rotação normalizada. Só na atual legislatura, 116 dos 315 senadores eleitos em 2013 mudaram de partido como quem muda de camisa.

Precisamente um dos propósitos principais da reforma chumbada em referendo (embora aprovada anteriormente pela maioria no Parlamento) passava por terminar com essa dupla bizarria: a da imensidão do número de mandatos e a da paridade bicameral. Alguém que queira genuinamente mudar o sistema (como Grillo e Salvini), lutar contra a corrupção e os privilégios dos políticos, não deveria ter aprovado estas medidas? Em tese, sim. Na prática, o que estes partidos querem é bloquear reformas (estas e todas as tenham esse título) para continuarem a colocar o ónus da insustentabilidade do atual sistema nos partidos tradicionais e nas regras comunitárias. Eles não querem ser responsáveis por alterar as regras caducas, apenas gritar por um virar de página para que no essencial tudo fique na mesma. Com a diferença de serem eles a mandar, numa rede de interesses com, entre outros, Marine Le Pen, Viktor Orbán ou Vladimir Putin.

Acresce a esta postura conjuntural e de alinhamento de vários astros protofascistas os dramas estruturais italianos: crónica estagnação económica, desintegração do centro político, bancos zombies, dívida pública astronómica, pressão migratória sem paralelo na UE. Qualquer derrapagem política no meio deste turbilhão obriga o BCE e Berlim a socorrerem Roma, com meios que dificilmente têm à mão. Se Merkel não tem condições internas nos próximos 12 meses para apagar um curto-circuito italiano, é Draghi o único que ainda vai podendo adiar qualquer colapso. Ou seja, é Frankfurt e não Berlim quem na prática manda no destino da UE a curto prazo. Só que o risco de perpetuar uma narrativa financeira asfixiadora da política é ver nascer mais Grillos pela Europa fora. É por isso que confiar cegamente em Mario Draghi pode ser tão fatal como reduzir o seu espaço ao mínimo. A Europa de 2017 vai mesmo precisar dos seus melhores.

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