Dilemas morais

Surpreendente seria se no imediato o acordo entre UE e Turquia sobre migrantes e refugiados não estancasse o número de entradas na Grécia ou de pedidos de asilo à Alemanha. O acordo foi feito para atingir esses objetivos em curtíssimo tempo, seja para aliviar politicamente a pressão sobre os seus políticos ou a forjar uma guinada de pretensa genialidade na gestão comunitária da crise. O acordo serviu para que Ancara - cujo fardo no acolhimento dos refugiados sírios, afegãos e iraquianos é de facto tremendo e cora de vergonha os 28 Estados membros - partilhasse com Bruxelas os custos e a gestão do problema, o que não é coisa pouca. Só que o acordo teve dois outros alcances, um de curto prazo e outro de longa duração. No primeiro caso, vale a pena dizer que enquanto houver guerras civis, Estados falhados e terrorismo ocupante de território vamos assistir a maciços fluxos de refugiados. O acordo não só não resolve nada na Síria e no Iraque como não coloca nenhuma pressão no comportamento da Turquia nessas frentes, nomeadamente quando mina a ação das milícias curdas anti-ISIS ou faz do HDP o bode expiatório dos males nacionais. Além disso, essas vagas de refugiados vão procurar rotas alternativas à da Grécia que serão acompanhadas pela destreza dos traficantes. Enquanto a UE não alocar meios com rapidez a rotas monitorizadas o problema vai continuar, ou se continuarem os bloqueios no sistema de validação dos pedidos de asilo ou na capacitação de meios humanos nos hotspots das ilhas gregas. Do querer ao poder vai um passo de gigante. No segundo caso, o acordo expressamente legitima a deriva autoritária da Turquia. E sobre isso não houve qualquer reparo por parte da UE, uma crítica, um aviso, nada. Se Ancara alivia momentaneamente o fardo europeu, pesa toneladas na fraca moralidade democrática comunitária. E essa vai infelizmente perdurar.

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