Da Rússia, com amor

Se Marine Le Pen é a face carismática da Frente Nacional, Florian Philippot é o soldado imprescindível da sua máquina partidária. Vice-presidente do partido, Philippot é diretor da campanha de Le Pen às presidenciais e ideólogo estratégico e comunicacional do partido. Uma espécie de Steve Bannon à francesa. Nesta semana resolveu ir pelo caminho do seu parceiro americano e começar uma cruzada anti-imprensa, adotando a mesma carreira de tiro contra o que também chama, com grande criatividade, de fake news: ou seja, qualquer notícia, síntese programática ou reportagem que não faça o frete à Frente Nacional. A lógica é simples: o "sistema corrupto" vai dos partidos tradicionais, dá um salto às instituições nacionais e comunitárias, e aterra nas redações dos principais jornais, televisões ou agências noticiosas.

A vitimização é eleitoralmente confortante, pode dar aquele colinho necessário à diferença entre passar à segunda volta e vencê-la, sobretudo se nessa fase o descrédito do adversário for manipulado por uma contrainformação profissional e cirúrgica. Foi isso que já começou a fazer a Sputnik, agência estatal russa, quando há dias pôs a circular nas suas plataformas internacionais que Emmanuel Macron era um lacaio da "finança americana" e que tinha ido ao Líbano "à custa dos contribuintes", identificando-o como o grande desafio de Le Pen (imune às más notícias da Sputnik) e um alvo a descredibilizar. Aliás, a vitimização dos nacionalistas não resulta só do ataque à imprensa, é depois exponenciada numa esfera alternativa tremendamente oleada nas redes sociais e internet fora, capaz de rapidamente espalhar rumores, criar narrativas alternativas, verdades fabricadas. Como me diziam há dias na sede da RAI, em Roma, convites para debates dirigidos ao Movimento 5 Estrelas são recorrentes, eles é que os recusam para depois alimentarem uma pseudoexclusão do espaço público tradicional.

A estratégia da vitimização da Frente Nacional tem ainda uma vertente financeira, inibida que está dos créditos da banca francesa, recorrendo sem pruridos à placa giratória criada por Moscovo, assumindo o partido o facto como natural e uma consequência inevitável da perseguição que sofrem em casa. O que a FN não diz é que qualquer organização que tenha um histórico de gestão financeira danosa dificilmente recupera um estatuto mínimo junto da banca. Criar uma narrativa-calimero é muito mais eficaz do que assumir que gerir dessa forma as contas de um partido é meio caminho andado para destruir a economia de um país. Tal como fazer política no Parlamento Europeu apenas para lá ir colher o dinheiro que a instituição concede aos seus eleitos não abona muito a favor da seriedade política de alguém que quer ser presidente da República. Mas a história está a ser contada de outra forma e o mérito é do profissionalismo de estrategas como Bannon e Philippot. É, mas não só. Há um mérito associado que deve ser atribuído à sofisticada plataforma de ataques cibernéticos russa, em particular ao grupo APT 28, responsável pelo caso da publicitação dos e-mails do Partido Democrata durante a campanha americana, mas também por uma contínua penetração nos sistemas informáticos governamentais de países como a Noruega, o Reino Unido ou a Holanda. Se falarem com qualquer especialista na matéria dos quatro cantos da Europa, chegarão facilmente à conclusão de que a dimensão da ameaça não está a ser devidamente tratada pela imprensa de maior credibilidade nem assumida pelos cidadãos como tal.

O caso holandês, que daqui a duas semanas tem legislativas decisivas e onde o partido de um aprendiz de Putin vai à frente nas sondagens há vários meses, é muito interessante de analisar. Para isso vale a pena recuar até abril de 2016, altura em que os holandeses realizaram o único referendo feito na UE sobre o acordo de comércio livre com a Ucrânia. O acordo foi chumbado e ficou sem efeito numa fase em que Kiev retomava os formalismos negociais com Bruxelas no rescaldo de uma agitada situação interna - formalismos que, aliás, foram também prometidos aos ucranianos pelo anterior presidente Viktor Ianukovitch e cuja recusa de última hora acabaria por desencadear a revolução de Maidan. As duas recusas foram celebradas no Kremlin, mas a sua conduta não foi de mero espectador.

Políticos holandeses de vários quadrantes, como o socialista Harry van Bommel ou o nacionalista Thierry Baudet, foram vozes preponderantes na demonização dos ucranianos pró-europeus, do acordo comercial e na vitimização da passada russa na Europa. Para isso contaram com o contributo da máquina propagandística russa, capaz a certa altura de inventar uma falsa crucificação de uma criança russófona às mãos das tropas ucranianas, alimentada mesmo na televisão estatal em Moscovo com recurso a uma testemunha que mais tarde veio a ser identificada como uma atriz russa. Isto sim são "factos alternativos", ainda por cima apelando aos instintos mais básicos que gravitam nas redes sociais e ajudam a formatar uma realidade paralela com impacto político decisivo. Isto passou-se na Holanda, mas já aconteceu na Alemanha, pode surgir facilmente em França, no Reino Unido, em Itália ou em qualquer outro Estado, por mais insignificante que possa parecer no xadrez político europeu, como as eleições na Bulgária no final de março e na República Checa no outono. Todos são relevantes para a estratégia russa de desmembramento ocidental: primeiro tomam Manhattan, depois, quem sabe, Berlim. O pior é que, para tal acontecer, nem é preciso seguir à risca o que diz Leonard Cohen. Basta apenas tomar conta do Eliseu. Franceses, uni-vos.

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