Contorcionismos

Durou pouco mais de 24 horas o suposto impacto gerado pela maior expulsão de "diplomatas russos" da Europa. Se era para encostar o Kremlin às cordas, como o Rocky fez ao Ivan Drago, o ato concertado pela maioria dos países membros da UE e da NATO não parece ter afetado minimamente a cleptocracia russa. Quando muito, ficarão com menos "antenas" nalgumas embaixadas, coisa que recuperarão com meios mais tecnológicos ou por vias menos convencionais. A pergunta que devemos colocar é esta: a vantagem estratégica que a Rússia reconquistou nos últimos anos na Europa diminuiu ou não?

O melhor exemplo para enquadrarmos a resposta não está nem na forma como Londres deu o tiro de expulsão, nem como Macron levantou a voz no Conselho Europeu 12 dias depois da decisão britânica, nem mesmo no contorcionismo português. Está, sim, no comportamento da Alemanha, a única potência europeia com uma política russa enraizada. Assim, 24 horas depois, Berlim e Moscovo celebravam o acordo há muito esperado para a construção do Nord Stream 2, o estratégico gasoduto que ligará Rússia e Alemanha, num projeto a rondar os dez mil milhões de euros e que envolve um consórcio de cinco empresas: a Gazprom russa, as alemãs Uniper e Wintershall, a anglo-holandesa Shell, a OMV austríaca e a francesa Engie. Além disso, a passagem pelo mar Báltico exige uma particular solidariedade com o projeto por parte de Finlândia, Suécia e Dinamarca, tendo em conta as jurisdições marítimas.

O resultado deste gasoduto é um brutal acrescento à hegemonia energética russa na Europa Central e de Leste. Além do trânsito feito via Bielorrússia, Polónia, Ucrânia e Eslováquia, passa também a fazê-lo diretamente à maior economia europeia, condicionando assim a sua performance, decisões políticas e, por via disso, uma qualquer concertação comunitária. Apesar de Berlim ter expulsado quatro "diplomatas russos" e o novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Heiko Maas, querer afirmar-se com um discurso anti-Kremlin (até para contrastar com a condescendência do seu antecessor, Sigmar Gabriel), a verdade é esta: a Rússia aumentou a sua capacidade de influência nas grandes questões europeias e provou, mais uma vez, que a UE pura e simplesmente não tem qualquer política para a Rússia.

Ora, isto torna ainda mais difícil pensar numa maior autonomia decisional na UE face à Rússia, aos seus comportamentos agressivos e aos seus métodos implacáveis. Ontem foi o fecho da torneira do abastecimento de gás, depois a invasão a um território "pertença" do seu imaginário imperial, hoje um envenenamento numa capital europeia, amanhã mais uns milhões em propaganda e desinformação com impacto nas eleições ocidentais e, caso ainda tenha tempo, dinheiro e ascendente, talvez troque os mísseis em Kaliningrado por uma geração ainda mais ameaçadora.

Claro que podemos permanecer na toada cinematográfica centrada em espiões e diplomatas. Ou podemos ir ao fundo da questão: o que foi feito no lado europeu e atlântico não prejudicou a influência russa nas decisões ocidentais, como prova o Nord Stream 2; tal como também não prejudicou o à-vontade com que a cleptocracia do senhor Putin lava dinheiro em Londres, Frankfurt ou Nova Iorque, já para não falar de Malta, Riga, Nicósia ou Luxemburgo, ou com que vários regimes de vistos gold dão acesso ao passaporte europeu sem o mínimo de fiscalização, inclusive política. Aliás, vale a pena recordar que mais de metade do volume de transações financeiras e imobiliárias feitas na praça londrina com recurso a estratagemas diversos é feita por russos, e que, das 14 mortes suspeitas de russos em solo britânico que tiveram lugar na última década, a senhora May foi seis anos ministra do Interior e é primeira-ministra há dois.

Mantenhamo-nos, então, em Londres. Politicamente - antecipando-se às conclusões do inquérito ao envenenamento de Skripal -, Theresa May mostrou finalmente algum talento. Unilateralmente, deu um sinal de força a Moscovo, levando europeus, americanos e até a Austrália a alinhar consigo. A forma como cada um o fez é indiferente para May: o objetivo era levar os países da UE a perceber que, no campo da segurança, ainda é o Reino Unido que mais ordena. Com voz grossa no Conselho, Macron liderou a frente continental, que não colheu unanimidade nas reações, mas confirmou Paris como o grande aliado de Londres na segurança europeia, sinal de autonomia recebido imediatamente em Berlim. Mas não só. A afirmação "thatcheriana" de Theresa May foi igualmente recebida internamente, desde logo entre os seus pares, desconfiados da sua veia na negociação do brexit, e em confronto com Jeremy Corbyn, nesta altura sobre brasas por excessiva condescendência com Moscovo. Por fim, ao motivar tantas capitais europeias a segui-la, Londres acaba por restituir credibilidade à sua cadeia de informações, manchada no dossiê Iraque, reafirmando-se numa frente essencial à luta antiterrorista europeia, conquistando aí uma vantagem nas negociações para um pós-brexit mais satisfatório.

Em Lisboa, governo e presidência alinharam-se numa abordagem multifacetada, depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros ter visitado Moscovo 15 dias antes da reeleição de Putin. Bilateralmente, não seguiram Londres. Regionalmente, não alinharam com Paris, Berlim e Madrid. Multilateralmente, refugiaram-se nos consensos possíveis na UE e na NATO. Seja por pressão partidária ou demonstração de autonomia pós-troika, o que fica no retrato final é Lisboa no lado híbrido da história. A minha dúvida é quantos dias pode aí permanecer.

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