Cidades globais e o brexit

Quando o Reino Unido aderiu às Comunidades, hoje União Europeia, o comércio internacional representava qualquer coisa como 27% do PIB mundial. Hoje essa quota está nos 58%. Neste trajeto de expansão, o Reino Unido conheceu uma performance económica, social, política e geoestratégica sem paralelo desde o fim do seu império. Até que uma tolice político-partidária manipuladora de factos e verdades conseguiu empurrar o país para um abismo sem qualquer agenda política consistente por trás. Diga-se que esta acusação é bipartidária, válida para a liderança dos conservadores e dos trabalhistas. Isto porque May e Corbyn convergem no essencial com o roteiro caótico do brexit, e se me disserem que o fiel adepto de Hugo Chávez - e que ainda não condenou Maduro - tem um plano razoável para minimizar os múltiplos danos que a saída do Reino Unido trará, ninguém o conhece ou sequer tem sido sinalizada. Sobretudo os termos do acesso ao mercado único, aquilo que as sondagens nas últimas legislativas revelaram ser o principal assunto que interessava ao eleitor trabalhista. Por isso, até ver, há um consenso bipartidário, o que adensa o drama britânico: sem rumo, sem estratégia, sem senso, sem alternativas.

Durante este percurso na UE, a natureza comercial do Reino Unido amarrou o país às dinâmicas da globalização, com os seus efeitos positivos e negativos, e em particular aos restantes países da UE, um mercado de proximidade e com regras generosas que vale metade das exportações britânicas. Para termos uma ideia, em 2016, as exportações do Reino Unido para a UE valeram 203 mil milhões de dólares, para os EUA 62 mil milhões, para a China 18 mil milhões, para o Japão e Canadá seis mil milhões cada, para a Austrália cinco mil milhões e Índia quatro mil milhões. Ou seja, os grandes mercados de exportação fora da UE valem, no seu conjunto, metade do que representa o mercado único para o Reino Unido. Neste quadro, 30% das exportações de serviços britânicas - o único setor com balança comercial favorável sobre o resto da UE -, sobretudo protagonizadas por Londres, são serviços financeiros. Não ter nenhum plano para minimizar o fim da pertença do mercado único é, no mínimo, uma gestão danosa para os britânicos com efeitos por muitas décadas.

O que pode, então, vir a caracterizar estes próximos anos no que à globalização económica diz respeito? Simplificadamente, podemos dizer que o modelo presente é sobretudo ainda assente em mercadorias físicas, numa procura por bens e serviços diversificados, numa cadeia global de abastecimento muito centrada nas economias desenvolvidas, onde os atores são os Estados e as multinacionais, com formas de monitorização das transações, numa transferência progressiva de tecnologia das economias desenvolvidas para as emergentes. No espaço de uma década, tendo em conta a transição e os ajustes já em curso, passaremos provavelmente a ter mais fluxos de serviços e de informação pouco ou nada tangíveis, uma procura por comércio mais justo, sustentado e assente em produtos locais valorizados numa cadeia global de valor, uma grande participação das economias emergentes e das megacidades, com um crescente papel das pequenas empresas, de atores não estatais e de indivíduos, beneficiários de múltiplas fontes abertas e conteúdos partilhados, num fluxo de transferência de tecnologia mais equilibrado entre economias desenvolvidas e emergentes.

Neste contexto de profunda digitalização, massificação da robótica, inteligência artificial, e do acesso e partilha de informação, veremos uma revolução no que produzimos, na forma como trabalhamos, viajamos, consumimos e comercializamos. E nas posições dos Estados, organizações internacionais e cidades com impacto na sua região. Por exemplo, no espaço comunitário, e de acordo com a dicotomia entre nacionalismo e cosmopolitismo a que aqui tenho aludido, perceberemos quem atuará numa lógica de partilha de oportunidades entre Estados, regiões vizinhas e municípios, com o objetivo de lutar por soluções que moldem cidades abertas à tecnologia, às empresas e às pessoas, à integração de imigrantes e à consolidação de hubs de inovação e de um quotidiano singular no quadro comparativo com outras cidades de competências semelhantes. Sim, estou a pensar nas múltiplas vantagens de Lisboa ou Porto.

Se as grandes cidades já assumiram um papel determinante na globalização, qualquer negacionismo no seu rumo pode isolá-las, empobrecê-las e torná-las menos relevantes na política internacional. Londres, mesmo que ideologicamente a contraciclo do brexit, vai sofrer com os seus danos, como aliás já acontece. Por isso é que o modelo de sucesso é aquele que for mais inclusivo, distributivo, participativo, partilhado e acessível por quem acrescenta valor aos modelos de negócio, quer fixar-se num modo de vida aberto e tolerante, que apresenta uma resolução de litígios ágil e desburocratizada, mas com instrumentos sólidos no combate à evasão fiscal, corrupção, exploração indevida de recursos, fluxos financeiros ilícitos ou concorrência desleal.

Londres é uma das capitais mais vibrantes do mundo. Todos os rankings credíveis a colocam no topo dos índices de excelência em ambiente de negócios, qualidade do capital humano, facilidade na partilha de conhecimento e informação, oferta cultural, atividade política e ambiente social internacionalista. A forma como os seus agentes políticos e económicos defenderem a capital junto de quem está a negociar o brexit pode vir a ditar o seu desfecho: brutal e intempestivo ou cauteloso e garantístico. O futuro está nas mãos das cidades.

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