Canção da redenção

Preparemo-nos. Em média, olhando para as sete eleições realizadas desde a reunificação, a Alemanha demorou 45 dias até ter um governo em funções, tendo a última coligação, em 2013, sido fechada passados 83 dias. A relevância dos dossiês, apesar da muita convergência ao centro entre CDU e SPD, e a demais luta pelas pastas são razões incontornáveis. Não me espantaria se esse tempo negocial fosse repetido agora. Desde logo porque a Alemanha tem pela primeira vez em cima da mesa uma solução a três (CDU/FDP/Verdes), mas que em boa verdade é a quatro (com a CSU). Em seguida, porque a queda histórica da CDU - o partido que mais deputados perdeu, embora seja de longe o que mantém mais circunscrições - retira-lhe alguma força para impor aos possíveis parceiros juniores a sua agenda e as pastas que desejaria, a começar pelas Finanças. Quer isto dizer que o quarto governo Merkel será errático, disfuncional e com um horizonte temporal curto? Para responder a isto precisamos de trabalhar alguns argumentos prévios.

O primeiro é que os alemães não gostam de eleições antecipadas nem de instabilidade política. Aquilo que noutros países pode ser visto como uma solução e até um sinal de vitalidade democrática, em Berlim é olhado como um mecanismo de derrota sistémica. Sendo este o enquadramento, digamos, psicológico, é duvidoso que uma solução chefiada por Merkel não assegure, por todas as vias, a conclusão normal da legislatura. Neste sentido, mesmo que haja dissonância programática, choque de personalidades, novas crises dentro e fora da UE, ou casos de lama política, Merkel e os seus parceiros farão tudo para levar a coligação até 2021. Do lado de fora, AfD e SPD, de formas diferentes, farão os possíveis para desarticular a coligação, na perspetiva do primeiro para continuar a conquistar eleitores na direita da CDU e, na ótica do segundo, recuperar eleitores perdidos para o FDP e Verdes. Por outras palavras, a coligação Jamaica pode até ter momentos erráticos e disfuncionais mas isso pode não ser impeditivo de prosseguir caminho.

O segundo argumento é que esse caminho pode servir o interesse da chanceler, no sentido em que, ao mesmo tempo, poderia assegurar a continuidade do governo e deixar que o FDP e os Verdes sofressem os custos de uma gestão errática nas suas pastas. Ou seja, capitalizar com a inexperiência dos outros até ser chamada a fazer o que melhor sabe: resolver crises e reforçar a sua posição de líder. Parto do princípio de que essa tal gestão errática nunca seria fatal, precisamente por não haver tradição de eleições antecipadas nem ser essa a tentação popular.

Em terceiro lugar, a entrega dos Negócios Estrangeiros aos Verdes não alteraria sobremaneira a política europeia alemã, dava mesmo um cunho pró-federal, o que permitiria a Merkel aparecer como a pragmática que encontra denominadores comuns exequíveis com as pretensões alargadas de Emmanuel Macron. Por seu lado, dar as Finanças ao FDP poderia ter o mesmo efeito, dado que no essencial os liberais afinam pelo mesmo diapasão de Wolfgang Schauble, abrindo no entanto a porta à conclusão de uma união bancária e da transformação do mecanismo europeu de estabilidade num fundo monetário europeu. Limar estas duas propostas de forma a ir ao encontro de Macron é a tarefa de Merkel, que precisa que o presidente francês tenha mínimos de sucesso com o cardápio reformista que apresentou nesta semana na Sorbonne. Se Merkel contribuir para o falhanço da presidência de Macron, não terá apenas de assistir à força da AfD no debate alemão como provavelmente terminará o mandato a ver Marine Le Pen subir as escadas do Eliseu. Não é esse olegado pelo qual Merkel quererá ser lembrada.

O plano Macron é uma lista maximizadora do papel da França na UE. É a tradução programática de uma ilusão de grandeza identitária que procura aproveitar uma certa indefinição nesta altura na Alemanha e o vazio equilibrador que a saída do Reino Unido levanta. É o retorno à ideia de Paris como farol de um suposto projeto uniforme, harmonioso, desejado por 500 milhões de cidadãos. É, se quisermos, um menu que Macron sabe ser irrealizável mas que facilmente o conota com uma ideia aparentemente vanguardista da UE. Além disso consolida-o geracionalmente nos Estados membros e força Berlim a responder-lhe, não o oposto. Politicamente, não é coisa pouca. Além disso, os três ou quatro pontos que Merkel apoiará podem ser suficientes para salvar o plano e manter o eixo no carril. Mais uma vez, o schaublismo do FDP pode funcionar a favor de Merkel, que reduziria o plano Macron ao possível e com isso salvaria a face de todos.

O grande problema pode vir de outro campo. Do crescimento da ideia de que Merkel não discute publicamente roteiros nem propostas, que esvazia o debate com silêncio para só surgir na decisão final de uma crise, quando tudo parece desabar. Essa projeção de frieza e julgamento continua a ter adeptos, mas muitos puniram-na nas urnas precisamente por se sentirem desprezados e desvalorizados no método e nas decisões da chanceler. Para colmatar isto, mesmo que corra à direita na imigração para contentar a CSU e travar a AfD, Merkel precisa de alterar traços na sua natureza política, ou como a própria diz, em alguém que "passou 35 anos a falar com poucas pessoas por dia e a refletir horas a fio". Se a queda do Muro a mudou e o ziguezague político a tem conduzido, pode ser que a coligação Jamaica traga a Merkel o ritmo que lhe faltava.

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