Brexit e bremain

É impossível prever o resultado do referendo no Reino Unido, mas qualquer que ele seja tudo caminhará diferente a partir de 24 de junho na UE. Digo isto porque o brexit e o bremain têm em comum dois importantes traços. Primeiro, jogam ambos no fio da navalha da política interna: a dimensão da fasquia é tão elevada que o líder derrotado dificilmente se levantará no futuro próximo. Segundo, os dois lados disputam os termos da relação com a UE, embora de forma diferente e com um objetivo antagónico. Vale a pena olhar este segundo ponto. O principal objetivo de ambos os lados é blindar o Reino Unido aos vícios da integração europeia e criar condições prévias para não ser atropelado pelo cenário apocalíptico (mas não improvável) de desagregação da União. O brexit quer fazê-lo com um corte umbilical, pensando que pode negociar favoravelmente o acesso ao mercado único; o bremain valida o acordo de fevereiro com os 27 - que lhe dá o melhor dos mundos -, mas não deixa de incentivar outros a recorrer ao mesmo expediente chantagista. Nada será, por isso, como antes. É a escolha do mal menor. As duas grandes falácias dos brexiters são a "recuperação da soberania legislativa de Westminster" e a "aceleração económica com o fim dos milhões enviados para Bruxelas". No primeiro caso, 98% da despesa pública britânica é hoje controlada por Londres e não por Bruxelas, em áreas fundamentais como a defesa, fronteiras, saúde, educação, pensões, já para não falar na política monetária ou fiscal - não há Estado membro com mais opt-outs nos tratados. No se-gundo exemplo, nunca a eco-nomia britânica foi tão competitiva no pós-guerra como depois da adesão à UE - deixar o orçamento comunitário também implica abandonar o processo legislativo da UE, mesmo continuando a ser influenciado por ele. Boris Johnson é tão perigoso para o Reino Unido como Trump é para os EUA.

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