'Borgen' revisitado

Na véspera da primeira das três eleições mais importantes do ano na Europa, todos os olhares estão centrados em Geert Wilders, o político mais vigiado da Holanda na última década. A atenção dada coloca-o numa posição ilusória de pivot indispensável a qualquer governação, além de lhe fazer o enorme favor de o pôr no centro do sistema, um erro político que muitos um dia acabarão por pagar. Não estou com isto a dizer que o caminho é o da desvalorização dos Wilders desta Europa, coisa que aliás contrariava os meus últimos cinco anos de investigação e análise à situação europeia, e valorizaria a danosa estratégia escolhida pelos líderes europeus para lidar com Viktor Orbán desde que este iniciou o processo de autoritarismo em curso na Hungria. O que digo é que Wilders conseguiu montar uma atmosfera política exclusivamente centrada em si, mas acima da sua real capacidade para influenciar a formação do próximo governo e, por via disso, da política europeia.

É verdade que, se vencer as legislativas - o que não é certo -, soarão cornetas nas sedes da Frente Nacional, nos arredores de Paris, e da AFD, em Berlim. Ambos os partidos cavalgarão a onda da vitória como se fosse sua, numa irmandade ternurenta mas cujo efeito eleitoral provavelmente não será o que preveem. Dir-me-ão que há um cheiro a dominó no ar depois do referendo do brexit e da eleição de Trump, mas em boa verdade não passa de uma perceção sem uma concreta base científica que ligue os eventos. Entretanto já tivemos a extrema-direita derrotada na Áustria, vemos Emmanuel Macron à frente de Le Pen nalgumas sondagens francesas, o SPD de Martin Schulz a subir na Alemanha, e os Verdes holandeses a quadruplicar as intenções de votos desde que Wilders resolveu chamar "escumalha" à comunidade marroquina. Este facto é ainda mais interessante dado que Jesse Klaver, o líder do partido de apenas 30 anos, é descendente de marroquinos e indonésios.

Ou seja, o Ocidente não está destinado à tragédia nacionalista e uma vitória de Wilders não é, necessariamente, motivo de exaltação triunfalista para os movimentos congéneres. O motivo é este: o líder do PVV não encontrará nenhum parceiro para formar governo, e uma sua vitória esbarrará na tradição negocial que privilegia um programa minimamente coerente, o qual exporá Wilders como um corpo estranho ao processo. Um processo negocial que, na tradição multipartidária holandesa, é bem mais importante do que a eleição em si. Pode até acontecer que o líder de um partido mais pequeno se projete nas negociações como aquele que tem melhores condições para chefiar o executivo e colar um programa de governo, que nesta altura da política europeia se pautará pelo compromisso comunitário, atlantista e da moeda única. Ou seja, quem apresentar uma direção ao arrepio destas linhas, como Wilders, não terá hipóteses de fazer parte de uma coligação balizada numa estratégia internacionalista - e não nacionalista - para a Holanda. Se assim for, que toquem as cornetas nas várias sedes dos partidos cosmopolitas por essa Europa fora. Estes sim, devem continuar a estar no centro das políticas públicas e dos rumos comunitários, sem descurar uma permanente autoavaliação sobre como se chegou a este ponto.

Os mais atentos recordarão o apoio parlamentar de Wilders ao primeiro governo de Mark Rutte (2010-2012), cuja separação por motivos orçamentais acabaria por reforçar o atual primeiro-ministro nas eleições antecipadas, dando origem ao atual "bloco central". A experiência não correu bem e o antieuropeísmo de Wilders é hoje bastante mais pronunciado do que então, definindo uma linha vermelha para os restantes atores. É também por isto que Wilders deverá ficar confinado à oposição parlamentar, dando até margem para que outros protagonistas possam ocupar espaços de poder confinados habitualmente a democratas-cristãos e socialistas. O comportamento destes últimos é mesmo um dos pontos de maior interesse destas eleições. Com as sondagens a apontarem para uma queda de 24% (2012) para apenas 6% - a maior entre todos - mesmo que integrem o puzzle da próxima coligação, dificilmente manterão a pasta das finanças e, por via disso, a continuidade da liderança do Eurogrupo. Além da blindagem a Wilders, este é o segundo possível bom efeito da noite eleitoral: tirar Dijsselbloem, um dos políticos menos sensatos da Europa, das decisões da zona euro.

O terceiro ponto de maior interesse resulta, mais uma vez, do processo de formação do novo governo. Mesmo que o atual primeiro-ministro Rutte mantenha essa posição de pivot - seja por ter ganho ou por ser, no quadro que exclui Wilders, quem se apresenta com mais pedigree político -, a verdade é que tudo aponta também para uma queda no número de mandatos, impacto que vai ditar a legitimidade do seu papel como facilitador de acordos. Se o conseguir, é provável que o fique a dever a uma narrativa eleitoral que tocou na agenda de Wilders no binómio identidade nacional/imigração, receita que Fillon ensaiou em França e que Merkel aqui e ali vai pisando na Alemanha. Mas, para Rutte prosseguir como líder, de duas uma: ou abandona esta guinada identitária por pressão dos demais partidos ou, mantendo-a, reduz o espaço e o tempo das alianças. O mimetismo de Rutte pode ser tanto uma tábua de salvação eleitoral como a sua guilhotina depois de 15 de março. Quem seguiu Borgen com atenção sabe que nem sempre quem ganha é o vencedor de uma eleição.

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