As virtudes dos pequenos passos

A Birmânia é talvez o país mais interessante de acompanhar no panorama político contemporâneo, pelas suas características e transformações. Desde logo, é o território no mundo com o mais duradouro conflito étnico, opondo minorias étnicas ao radicalismo budista, sendo aquelas compostas, entre outros, por muçulmanos sem direito à nacionalidade, ocupando a metade do território mais rico (ouro, ópio) e fazendo um terço da população. Isto torna inevitável que se negoceie a paz e a sua integração no processo de transformação política. Aung San Suu Kyi, a heroína serena da Birmânia, tem sido omissa sobre a violência étnica e pouco aberta a visões opostas, inclusive dentro do seu partido. Devemos celebrar os 80% de adesão às urnas e a abertura pró-democrática desde as reformas de 2010, mas a Birmânia é mais do que isso. Outro interesse acrescido é o facto de as transformações estarem a ser feitas num misto de iniciativa própria, pressão popular e competição entre as três grandes potências da Ásia (China, Índia e EUA). Não há, como noutras latitudes, ímpeto externo para mudar o regime à força, nem este se fecha quando a rua ou o apetite dos grandes é mais audível. Pelo contrário: os generais têm sabido abrir a porta à transição pactada, negociando com a oposição, acolhendo investimento estrangeiro, legalizando a greve, libertando presos políticos, reduzindo a dependência chinesa e cortejando os EUA, cujo presidente foi o primeiro na história a visitar o país (2012). Só que também a transformação tem um modo e um ritmo e os militares não abrem mão da quota parlamentar e do bloqueio à revisão constitucional que permitiria ao regime parlamentarizar-se ou liberalizar o leque de candidatos presidenciais. Ou seja, reformas sem pressas, ruturas ou lenha na fogueira. Não é perfeito? Paciência. Aplaudamos as virtudes dos pequenos passos.

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