As três Turquias

As eleições turcas trouxeram uma confirmação, um adiamento e uma perigosa validação. Confirmaram um mapa político tripartido e consolidado. Na costa ocidental, o laicismo republicano do CHP manteve a percentagem e conquistou três mandatos. Se quisermos definir esta orla, dir-se-ia que é tão herdeira do kemalismo como a mais europeizada da Turquia. Já no sudeste curdo está a força do HDP, que se mantém no Parlamento mesmo perdendo 1,3 milhões de votos e 21 deputados. É, se quisermos, um partido curdo com agenda de esquerda abrangente e urbana. Se não tivesse 10%, o AKP teria ampliado a maioria absoluta, o que significa que, em junho como agora, a legitimidade política curda travou o presidencialismo absoluto de Erdogan. Ainda bem. E é no meio destas duas latitudes que está o AKP, o grande partido do conservadorismo islâmico da Anatólia, enraizado em dinâmicos setores da economia, mas que caiu nos vícios da eternização do poder e na deriva egocêntrica do seu eterno patrono. É aqui que chegamos ao adiamento. O AKP reconquistou a maioria absoluta (à custa dos nacionalistas do MHP e do regresso de eleitores curdos reféns do medo instalado), mas não tem mandatos para mudar a Constituição ou sequer convocar um referendo para o efeito. A legalização do putinismo turco continua adiada, o que não parece impedir Erdogan de se imiscuir na governação ou explorar o clima de guerrilha que no domingo beneficiou o seu partido. Esta é a validação. O sucesso eleitoral do medo e da inerente estratégia de colisão nacional num país tão dividido, pode torná--lo ingerível, incendiado e irrecuperável. A Turquia é a fronteira NATO no Médio Oriente, vital na Síria e na crise dos refugiados, o maior candidato à UE e o eterno modelo de democratização islâmica que o Ocidente tolera. O custo de perdê-la para o livre arbítrio é tremendo para todos. A começar pelos turcos.

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