Fora de horas

Bernardo Pires de Lima

A discussão sobre o fim da mudança da hora que tão talentosamente a Comissão Europeia abraçou nas últimas semanas está deslocada na sua relevância. A única mudança de hora que deveríamos estar a debater era a do discurso do estado da União, um modelo começado em 2010 e indignamente enterrado pelos seus protagonistas. Ao contrário dos EUA, onde o presidente se dirige a um Congresso lotado em horário nobre, na UE o presidente da Comissão dirige-se a um Parlamento Europeu quase vazio às nove da manhã. Não há comunicação possível sobre as virtudes da União a uma hora em que nem as televisões, nem o comum dos cidadãos perdem um segundo para lhe prestar atenção. Mas se este é o ponto prévio ao modelo iniciado por Durão Barroso, importa olhar para o que traz Jean Claude Juncker.

Os menos críticos têm apresentado o argumento da veterania como um trunfo numa Europa aparentemente sem memória histórica: a experiência como um dos pais da moeda única, os muitos anos de corredores em Bruxelas e o facto de ter liderado um pequeno país habituado aos equilíbrios continentais. Tudo isto estaria correcto se Juncker acrescentasse autoridade política, energia decisória, assertividade argumentativa, carisma político e chama discursiva. Como ficou demonstrado neste seu último discurso do estado da União, Juncker não tem nenhum desses atributos. Tem o mérito de estar rodeado de alguns bons comissários com visão e coragem políticas, tem a pouca sorte de estar à frente de uma comissão garante dos tratados quando estes estão em cheque e permanentemente sob ameaça, e tem a virtude de estar, grosso modo, correcto na hierarquia das prioridades da agenda da comissão: comércio livre, reformas da zona euro, digitalização da economia, relacionamento com as outras instituições europeias, segurança europeia e estabilidade nos Balcãs.

Os mais críticos, onde me incluo, não se contentam com isso. Ter alguém que nos sintoniza com a memória histórica da União não pode, por si só, justificar o seu protagonismo num momento como o que a Europa atravessa. Se não trouxer capacidade política entre os Estados-membros, influência e prestígio em Moscovo, Washington e Pequim, ou um rasgo analítico sobre o sensível momento da Europa, pouco ou nada nos serve. O conteúdo e sobretudo a forma como Juncker expressou, neste último discurso, o seu pessimismo, a sua falta de chama, a sua incapacidade de ver a grande fotografia da globalização e, ao mesmo tempo, não conseguir transmitir a confiança que se lhe exige sobre as instituições e as decisões comunitárias, mostram-nos como é tão importante aliar uma mensagem realista a um mensageiro inspirador. Esperámos anos a mais para colocar a Polónia e a Hungria no devido canto do ringue, continuamos a "vender" mal a dimensão geopolítica da ambiciosa agenda comercial da Comissão, permanecemos enredados numa argumentação excessivamente funcionalista e deficitariamente política, e trazemos poucas vezes ao debate os anátemas da integração europeia, deixando-nos antecipar pelas apocalípticas mensagens nacionalistas. Por fim, continuamos pouco criativos e activos nas reformas que os partidos políticos precisam para, de baixo para cima, participarem de outra forma nos decisivos debates que a Europa enfrenta. Que a União saiba, em 2019, dar a resposta certa aos dilemas que Juncker nunca foi capaz de deslindar.