Agentes provocadores

Foi a quarta vez que a Rússia invadiu o espaço aéreo turco desde que Putin começou a operação militar na Síria. Só por muita sorte é que o congestionamento regional e a falta de coordenação entre várias aviações militares não levaria a um incidente inflamado. O abate do caça russo pela Turquia e a morte do piloto pelos turcomanos na Síria tem todos os condimentos para regar a gasolina a relação entre os dois maiores egos da política internacional. E vendo as reações de Erdogan e Putin, o cenário parece preocupante. O presidente turco levou o caso à NATO, que em uníssono se mostrou solidária, já o presidente russo foi visceral: "Vai a NATO servir os interesses do ISIS?" Caminhamos para uma escalada confrontacional entre ambos? Há razões para duvidar. Primeiro, a relação bilateral é estrutural. A Rússia precisa do Bósforo para circular entre o mar Negro e o Mediterrâneo, razão pela qual agiu da forma que conhecemos na Crimeia e agora na Síria. A Rússia é o maior fornecedor de gás da Turquia, por onde, aliás, está previsto passar um gasoduto até aos Balcãs. Sem fonte de energia e uma economia forte, cai o centralismo apoteótico de Erdogan e o sonho revivalista otomano. Com as trocas comerciais previstas triplicar até 2020 e novos acordos estratégicos em cima da mesa (entre eles uma central nuclear), é mais provável o congelamento de alguns dossiês do que uma retaliação militar incontrolável. Segundo, a Rússia precisa que a Turquia continue numa ambiguidade anti-ISIS no interior da NATO, uma fórmula que garante a Moscovo não haver uma missão da Aliança no Médio Oriente por falta de unanimidade. Deste ponto de vista, Putin não empurrará Erdogan para os braços de Obama através de uma resposta militar dura e prolongada. Para Putin é muito mais importante fragmentar a NATO do que vingar a quente a morte de um piloto.

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Anselmo Borges

Globalização e ética global

1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.