Adeus, Obama

Há quem diga que Barack Obama foi muito mais um speechwriter do que um presidente. Discordo da sentença. Não só foi um extraordinário orador político como um bom presidente. A verdade é que poucos líderes americanos na história recente foram obrigados a decidir sobre tantas matérias estruturais à salvação do país e à prevalência do estatuto de primazia internacional. Acertou mais do que errou? Na minha opinião, sim. E os acertos e erros serão duradouros? À partida não: Trump foi eleito para os dizimar e, nesse sentido, talvez nunca consigamos perceber o verdadeiro impacto de algumas decisões tomadas.

Devo dizer que destoei do entusiasmo generalizado em 2008. E fi--lo em consciência: não que tivesse qualquer animosidade com Obama, mas porque estava consciente do monstro que ele herdava e dos constrangimentos do cargo. Hoje, depois de oito anos a analisar o trajeto, decisões e comportamentos quase diariamente, de ter viajado e vivido nos EUA, tenho honestamente pena de que não possa concorrer a um terceiro mandato. Talvez não tivéssemos Trump, mas sobretudo dar-lhe-ia tempo para corrigir e consolidar algumas opções.

A característica que mais me impressionou em Obama foi a sua qualidade oratória e narrativa. Desde o início das primárias de 2008 que a sua palavra esteve envolta numa aura natural de singularidade pessoal, histórica e litúrgica: opositor improvável de Hillary, primeiro presidente afro-americano, oratória profética. Obama revolucionou a forma de fazer campanha, inspirando quase dez milhões de novos eleitores a votar, trabalhando com eficácia frases simples sem recorrer à agressividade, ao populismo argumentativo e à histeria catastrofista. Ao contrário dele, Trump foi básico para chegar às bases, impulsivo para explorar os impulsivos, manipulador para captar a raiva incontida da sociedade. Aqueles que dizem existir uma natureza semelhante entre Obama e Trump, populisticamente salvífica, ainda não perceberam a eleição de 2008, as diferenças entre mensagens populares, e a distinção entre populismo e popularidade. As campanhas de Obama e de Trump foram como a água e o vinho e as ideias como o dia e a noite: as Américas que um e outro protagonizam são, por via disso, diametralmente opostas.

Na minha opinião, o ponto alto dos discursos de Obama foi o de aceitação do Nobel da Paz, em 2009, escrito pelo seu punho. Esse texto reflete a gravitas intelectual do político, a importância que dá à liturgia da palavra, a noção do "presente envenenado" concedido e a coragem em discorrer sobre a "guerra" mais de quarenta vezes perante uma plateia de pacifistas. Se há reconhecimento que lhe deve ser feito é de ter cuidado o discurso político com mestria, renovado o interesse pelo seu alcance, e acautelado a sua qualidade, fosse qual fosse o momento. Esta escola e esta doutrina vão, infelizmente, ser abolidas da Casa Branca a partir de 20 de janeiro.

Depois da palavra, a ação. O primeiro raciocínio para avaliar Obama é reconhecer o fardo que lhe toldou o exercício do poder. Quando Bush chegou à Casa Branca, Clinton deixara o Tesouro com superavit; quando Obama tomou posse, além de duas longas guerras malditas e tremendamente caras, o desemprego ia nos 10%, o pânico bancário estremecia o país, e a economia agonizava como não sucedia há décadas. Passados oito anos, o défice federal caiu de 9,8% para 2,8%, o setor privado criou 12 milhões de novos postos de trabalho, e o desemprego caiu para 5%. Além disto, alargou a proteção à saúde a 20 milhões de adultos e três milhões de crianças, não teve um único caso nefasto à sua imagem ou da sua família, alcançou um improvável acordo em Paris sobre alterações climáticas, garantiu a independência energética nacional, bateu-se por tratados comerciais com um elevado alcance geopolítico, distendeu importantes relações bilaterais (Birmânia, Irão, Cuba) e, ao contrário de alguns profetas, nunca desligou a América da Europa. Foi suficiente? Nunca é.

O grande erro de Obama foi não ter baixado as expectativas iniciais. A natureza humana e política precisa de ceticismo para ter sucesso. O excessivo otimismo externo dos primeiros anos (com Rússia e Médio Oriente, sobretudo), a complacência com o revisionismo russo na política europeia, a gestão do pós-guerra líbio, a incompreensão quanto aos efeitos causados pela retração estratégica na Europa e no Levante, e a oportunidade perdida em moldar de outra forma a gestão da crise financeira europeia, são alguns dos seus fracassos. Internamente, não conseguiu reformar a lei das armas, controlar o sentimento anti-imigração e racista, nem forjar uma total paz democrata após 2008. Podia ter feito mais? Claro. Mas a política americana não é um exclusivo da Casa Branca e o Congresso, em particular, foi quase sempre uma força de bloqueio irredutível apenas interessado em cavalgar a crescente polarização nacional, lançando mais gasolina na fogueira em vez de a apagar. A estratégia deu Trump.

Comunicação, imagem, gestão positiva da maior crise financeira em 70 anos, sensibilidade social, prudência nas missões militares. Só isto devia fazer de Obama um dos melhores presidentes do pós-Guerra. É verdade, sai com uma popularidade elevada, mas ao mesmo tempo envolto em desilusão. Mas poderia ser de outra forma? Sim, se o ceticismo analítico prevalecesse desde o início. Afinal de contas, só os deslumbrados com a natureza humana e a política se desiludem facilmente.

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