Acertar o passo

Obama esteve em Riade num momento particularmente sensível entre os EUA e a Arábia Saudita. O relativo sucesso da negociação com o Irão sobre o programa nuclear e a hipótese sugerida por alguns congressistas americanos de tornar público o relatório de 28 páginas elaborado no âmbito da comissão sobre o 11 de Setembro e que, supostamente, implica diretamente o governo saudita no atentado (15 dos 19 terroristas eram de lá), levou a Casa Saud a ameaçar vender obrigações do Tesouro americano avaliadas em 750 mil milhões de dólares caso uma lei fosse aprovada para permitir que famílias das vítimas processem governos estrangeiros. Além disso, Riade tem invertido uma certa discrição militar no exterior, mostrando-se hoje agressivamente preponderante no curso das guerras na Síria, Iraque e Iémen, ou na evolução interna do Egito e do Líbano. O tom em Washington sobre os méritos da aliança com os sauditas também mudou nos últimos tempos. Obama recusou apelidá-los de "amigos" numa longa entrevista à The Atlantic e, apesar do reforço das generosas avenças sauditas a empresas de lobbying americanas (p. ex. Podesta Group, BGR, DLA Piper ou Pillsbury Winthrop), a opinião de muitos decisores é que Riade é hoje uma plataforma ideológica, cultural e financeira do jihadismo contemporâneo incompatível com a segurança e os interesses americanos. Aliás, mesmo que muitos não verbalizem, um dos conselheiros de segurança de Obama, Ben Rodhes, não fez cerimónia: "mesmo que não seja o governo a fazê-lo, há muitos milionários sauditas que suportam o extremismo." De qualquer forma, Obama foi a Riade com um grande objetivo. Mostrar que a relação não está em causa mas que muito precisa de mudar, a começar pela criação de um canal oficioso com Teerão mediado por Washington. Seria um enorme passo na estabilidade do Médio Oriente, mas, a ser dado, só Hillary o poderá fazer.

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