A tempestade perfeita

É difícil escrever sobre a Europa em 2016 sem evitar o catastrofismo. As suas cinco crises existenciais estão a consumi-la e a assustá-la, como se um tornado estivesse em rota de colisão com os edifícios estruturais e cada país fugisse para seu lado ou se escondesse onde der. E não há nenhum sinal sólido de inversão desta tempestade perfeita. Primeiro, a estabilidade da zona euro continua por demonstrar. Cumprir planos da troika não é o mesmo que tornar sólido o espaço político do euro: quanto muito desvia a atenção dos problemas de um certo país, mas não tranquiliza ninguém quanto às etapas políticas que faltam cumprir para blindar a moeda única. E não há razões para dormir descansado sobre as crises grega, portuguesa ou espanhola, um hipotético cordão de segurança a Itália ou França, ou uma restauração de confiança no euro pelos restantes Estados membros. Segundo, o extremismo anti-UE continua a galopar tanto o discurso da Frente Nacional como o exercício de poder de Viktor Orbán, o ideólogo-mirim da ala putinista da Europa iliberal. Polónia e Eslováquia estão já em deriva perigosa e os Balcãs entraram na fase-chave das adesões euro-atlânticas, reavivando mais uma ferida entre o Ocidente e Putin que, com legislativas em setembro, tudo fará para atear fogos na Europa, aparecer depois como apaziguador e ganhar popularidade caseira. A Ucrânia, como terceira crise, é a etapa maior desta piromania. As duas últimas, refugiados e brexit, estão interligadas, pois Londres quer tanto fugir de Bruxelas como da vaga mediterrânica. Se a caótica gestão comunitária está a consumir politicamente a UE e a atiçar a xenofobia partidária, um hipotético brexit vai pressionar ainda mais Berlim a compor unilateralmente os cacos europeus e a expor a dificuldade de Paris em continuar a partilhar a gestão do condomínio. 2016 vai ser o ano mais importante na história da UE.

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