A rutura Trump

Quem se interessa pela história dos discursos políticos presidenciais americanos só pode chegar a uma conclusão: com Trump, estamos no grau zero da qualidade da palavra, da comunicação e da liturgia política. Quem ler antigos presidentes como James Madison, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln, J.F. Kennedy ou Barack Obama, e fizer hoje o penoso exercício de acompanhar o vocabulário de Donald Trump, sabe do que estou a falar. O domínio da língua, do timing político, o cultivo da argumentação, o ritmo dos textos, a postura comunicacional e o enquadramento intelectual fizeram de muitos discursos presidenciais marcos na política internacional, para os quais contribuíram nomes emblemáticos da escrita política como Raymond Moley, Ted Sorensen, Arthur Schlesinger, Jack Valenti, Peggy Noonan ou Jon Favreau, assim como o talento de vários presidentes. E não é preciso recuar muito no tempo: leitor compulsivo e escritor exímio, Barack Obama foi, antes de tudo, um intelectual na Casa Branca, capaz de fazer a síntese entre várias tradições ideológicas. De Lincoln herdou o peso da palavra e a perseverança numa unidade nacional ilusória, de Truman a valorização das alianças, de Lindon Johnson o assistencialismo social alargado, de Reagan o realismo externo, de Kennedy o estilo e a noção do espetáculo e de Clinton um misto de voluntarismo com fina arte política.

Talvez o maior exemplo dessas qualidades intelectuais tenha sido o discurso de aceitação do "envenenado" Prémio Nobel da Paz em 2009. Três dias antes de chegar a Oslo, Obama pediu a Jon Favreau e Ben Rodhes que reunissem alguma informação para começar a preparar o discurso, dado que tinha mais de vinte reuniões até partir. Contudo, nenhum draft foi pedido, o que não era habitual. Na véspera de viajar, Obama tinha as seis páginas redigidas pelo seu punho, confiante de que estava com o enquadramento dado por alguns dos seus autores preferidos (Santo Agostinho, Churchill, Martin Luther King e, sobretudo, Reinhold Niebuhr), revisitando os termos da "guerra justa" e usando 44 vezes a palavra "guerra" numa sala de pacifistas. Foi não só corajoso como genuíno.

Hoje, passados seis meses desde a tomada de posse de Trump, podemos concluir que a rutura mais evidente com a história presidencial foi feita nos domínios do culto da palavra e da eficácia na comunicação política. Mesmo George W. Bush, que não era propriamente conhecido pelo domínio da língua nem pelo brilhantismo, tinha uma troika de speechwriters de grande qualidade (Michael Gerson, John McConnell e Matthew Scully). Trump tem Stephen Miller, que nos momentos mais solenes (inauguração, estado da união, em Riade e Varsóvia) vai colando as tiradas desgarradas do presidente em parágrafos sucessivos. Claro que isso não é sinónimo de qualidade mínima, pelo contrário: a pobreza do conteúdo continua a envergonhar a linhagem presidencial. Apesar de tudo, dá algumas pistas a Trump para que não tenha de discorrer pela sua cabeça, um exercício complicado para quem pensa em 140 carateres num estilo perigosamente infantil. Basta ler a entrevista que deu há dias ao The New York Times para percebermos a dificuldade em desenhar um raciocínio maduro e estruturado.

Dir-me-ão que um bom presidente não tem de ser um poeta, um intelectual ou alguém que dá uma importância maior às palavras mas está esvaziado de capacidade política. Estou de acordo. Mas há mínimos. O que Trump revela ao não colmatar o seu vazio vocabular com ajuda de qualidade é uma total despreocupação com os americanos que não fazem parte da sua base radical indefectível. Com 36% de popularidade, a mais baixa de um presidente ao fim de seis meses, Trump já perdeu o apoio dos independentes e daqueles que votaram nele por ódio visceral aos Clinton. Como várias vezes argumentei, a estratégia de Trump passa apenas por fixar a sua base mais radical, esperando que outros se juntem somente por rejeição da alternativa. Essa estratégia resultou uma vez, mas tem perna curta. Nesta lógica, percebe-se a voragem de ordens executivas iniciais (sem equivalente consequência legislativa), a guerra contra a imprensa, os serviços de informação e algumas minorias: tudo isso ajuda a barricar o presidente, a Casa Branca e o séquito trumpista. Barricar radicaliza, separa águas incompatíveis, inventa inimigos internos e externos, vitimiza nas alturas certas. Tudo para que na hora certa pelo menos esses digam presente. Este tribalismo político, associado ao egocentrismo imaturo, desregrado e politicamente impreparado, tem caracterizado, sem surpresa, o presidente Trump.

Além do mais, podemos acrescentar à desqualificação da comunicação, à impreparação do presidente e ao desprestígio da Casa Branca - de uma Casa Branca sem casos, passámos para uma Casa Branca de casos - um declínio no profissionalismo com que é desenhada a política interna e externa. Vou deixar de lado a fraca qualidade legislativa, que avança e recua em anúncios ridículos, ou a incompetência para colar uma maioria republicana fragmentada no Congresso, mas na frente internacional, os mais bem preparados não entram nas reuniões importantes (Putin, Netanyahu, Bin Salman) e alguns bons conselhos são liminarmente desprezados de forma autoritária (artigo V na NATO, segunda reunião com Putin no G20). O nepotismo, a nuvem de esquemas e a tribo sinistra que manda na Casa Branca impuseram-se sem pudor. Mais do que grandes fraturas estratégicas, a principal rutura de Trump é mesmo com a vergonha política. Apresentar-se como um presidente forte não significa que se lidera uma presidência forte.

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