A reviravolta


Dois meses após as eleições alemãs, temos uma confirmação e uma reviravolta. A confirmação resulta da incompatibilidade de agendas entre os quatro (e não três) partidos que iniciaram conversas exploratórias com vista à formação de uma coligação. CDU, CSU, FDP e Verdes têm prioridades e táticas diferentes na imigração, na zona euro, na energia, no ambiente e na fiscalidade, além de expectativas distintas a curto prazo. A CSU quer travar o crescimento da AFD na Baviera e sofrer o menos possível com o centrismo de Merkel. A chanceler está sob uma pressão interna enorme para encostar à direita na imigração e ser pouco flexível com as propostas para o euro enunciadas por Macron, embora a sua convicção em muitas das políticas públicas esteja hoje mais próxima dos Verdes e até do SPD do que do seu próprio partido. Os liberais do FDP, com um líder ambicioso e atento ao cálculo político, sabe que da última vez que assinou uma coligação com Merkel terminou o mandato sem chegar ao Bundestag. Hoje, sem a mesma pressa e com o objetivo de conquistar eleitorado à CDU, abriu portas à negociação para logo lhe tirar o tapete, pondo logo a culpa em Merkel, acusada de incapacidade para liderar o compromisso que a Alemanha precisa. O ritmo dos Verdes contrasta com o calculismo dos liberais: têm não só mais pressa de integrar o governo como olham para Merkel como a líder de que não abdicam.
Imediatamente a seguir às eleições de setembro escrevi aqui que uma coligação Jamaica poderia beneficiar Merkel mesmo que não oferecesse grande coesão ou longevidade. Caso os Verdes ficassem com os Negócios Estrangeiros e o FDP com as Finanças, a política europeia da Alemanha não sofreria um grande choque nem a linha Schauble entraria em colapso, permitindo estas perspetivas a consolidação de Merkel como a geradora de denominadores comuns e de pragmatismo nas decisões, tirando assim algum cunho excessivamente ideológico com que a Alemanha tem atuado nessas frentes interligadas. Este argumento baseava-se na total intransigência de Schulz em negociar com Merkel, o que deixava em cima da mesa uma só solução de governo num país que não aprecia eleições antecipadas nem instabilidade política. A reviravolta chegou há dois dias. Vale a pena tentar perceber porquê.
O primeiro argumento resulta da posição de Merkel quando, implodidas as negociações Jamaica, disse publicamente que preferia eleições a um governo minoritário. Conhecendo a ausência de tradição para minorias governativas e antecipação de eleições, tornou ainda mais dramático o ambiente, pondo meio mundo a pensar nos proveitos que a AFD poderá ter, nos efeitos na economia e na leitura que muitos eleitores farão sobre a responsabilidade de não se conseguir gerar um compromisso para a legislatura. O cenário de incerteza partiu o SPD ao meio e Merkel recuperou a liderança política do enredo.
A segunda linha de raciocínio resulta do erro político de Martin Schulz quando, de forma extemporânea, reafirmou a inflexibilidade do SPD em dar a mão a Merkel. Essa tomada de posição barricou Schulz de tal maneira que acabou por fragilizá-lo sob vários ângulos. O primeiro ao tentar definir a agenda do partido sem perceber que muitos dos seus quadros não queriam que o partido assumisse novamente essa intransigência. Ou seja, parece que Schulz não conhece o partido que lidera.
O segundo ao ler mal as vantagens do silêncio como resposta ao dramatismo. Temporizar em vez de apressar uma posição definitiva ter-lhe-ia permitido auscultar internamente as vantagens e as desvantagens de abrir, nem que fosse tenuemente, a porta à chanceler. Deste ponto de vista, depois de uma campanha eleitoral fraca e sem rasgo, Schulz mostraria alguma qualidade política, fazendo Merkel e o povo alemão dependente da sua decisão. A sua atuação só confirmou os parcos recursos que tem.
O terceiro reforça a fragilidade de Schulz, que não só não foi capaz de verbalizar a inversão da sua posição inicial - missão a cabo do secretário-geral do partido, Hubertus Heil - como se mostrou totalmente pressionável pelo presidente Steinmeier. O quarto acaba por resultar destes pontos anteriores, dado que o SPD, se não incorresse nos erros descritos, poderia ter feito outro caminho para chegar à mesma conclusão: que liderando a agenda do drama em curso, recorrendo ao silêncio como tática e à perceção do efeito que o vazio governativo gera nos alemães, iria transformar uma estrondosa derrota eleitoral - que milagrosamente não fez cair Schulz - numa vitória política dois meses depois. Qual? Ser visto como o salvador do grande momento de incerteza alemão dos últimos anos, garantindo para si pastas de primeira linha agora com outro peso negocial.
Uma grande coligação (com os Verdes eventualmente também dentro) teria o mérito de consolidar o rumo político alemão dos últimos anos, podendo encaixar nas propostas de Macron para a zona euro se o SPD for hábil na obtenção das pastas fundamentais. De qualquer forma, a posição de Schulz está reiteradamente fragilizada e a AFD passaria a ser o maior partido da oposição parlamentar. Não é, por isso, certo que a legislatura chegue ao fim. Um acordo de incidência parlamentar permitiria salvar a pele a Schulz mas colocaria o SPD no papel difícil de garante da estabilidade e voz da oposição. Não há soluções ótimas em política: bem-vindos, por isso, amigos alemães à Europa dos governos impossíveis, das coligações intermitentes e da política de recurso.

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