A Resolução 2254

Um dia após ter sido assinado em Marrocos um acordo de unidade nacional para a Líbia, apadrinhado pela ONU, o Conselho de Segurança aprovou pela primeira vez e por unanimidade um roteiro político para a Síria, na esteira de etapas negociais de Viena a Riade, só possíveis porque Washington e Moscovo têm afinado pelo mesmo diapasão. Mas será que há motivos para pensar que a guerra na Síria pode finalmente ter fim à vista? É completamente prematuro celebrar, o que não significa que a resolução 2254 não possa ser o início de qualquer coisa. Primeiro, porque a ONU assume a coordenação geral da plataforma diplomática, não deixando que essa gestão caiba a um Estado em particular. Podemos duvidar da capacidade e credibilidade da ONU para levar isso à prática, mas o procedimento e o fórum são os indicados: quanto mais um Estado prevalecer teimosamente como líder do processo, mais retração causa nos antagonistas. A ONU dilui estas distâncias. Segundo, porque atirou propositadamente a "questão Assad" para as calendas, caso contrário não teria havido resolução. Isso não significa que o presidente sírio tenha um salvo conduto, mas a ambiguidade sobre o seu futuro é suficiente para não abrir um vácuo de poder fatal e manter abertas as hipóteses de reunir, em janeiro, regime e oposição à mesa. Para quê? Aceitar o calendário proposto: seis meses para formar governo provisório inclusivo e aprovar nova constituição, dezoito para realizar eleições sob supervisão da ONU. Parece irrealizável dado o caos no terreno, mas é aqui que o terceiro ponto encaixa. A resolução não alarga o roteiro político às áreas do ISIS e Al Qaeda, apelando mesmo à sua erradicação. O que o calendário e a negociação política permitem é ampliar mínimos de coesão interna anti-terrorista com supervisão internacional. Em tese, está correcto. Na prática, ninguém sabe se funcionará.

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