A quinta parte das eleições espanholas

A campanha eleitoral espanhola não começa oficialmente hoje. Vai entrar, aliás, na sua quinta parte. As duas primeiras foram em Atenas, em janeiro e setembro. A consolidação do Syriza não pode ser vista como um fenómeno exclusivamente grego, quer pela natureza transfronteiriça da sua narrativa antiausteridade (a prática é outra conversa) quer pela ligação ao Podemos e até a um imaginário de uma parte do PSOE. A terceira parte deu-se em setembro na Catalunha, quando se vincou a clivagem com o governo do PP, testou a popularidade do Ciudadanos e reforçou a centralidade do futuro da unidade do Estado nestas legislativas. A quarta parte viajou até às legislativas portuguesas, estendendo mais uma vez a narrativa antiausteridade ao desenho de uma coligação singular, liderada por um PS "irmão" do PSOE, com marcação cerrada, não da direita parlamentar, mas do BE "companheiro" do Podemos. Este é o contexto pré--eleitoral espanhol: com um lastro de ruturas partidárias, viragens à esquerda, tentativas de soberanismo oco e de fraturas com Bruxelas. Por aqui se vê como a política europeia é hoje política nacional e não externa. Mas o interesse no momento espanhol não se esgota na esteira que levanta, tem particularismos estimulantes e implicações próximas. Quatro partidos praticamente juntos nas sondagens voltam a sublinhar a vaga negocial que atravessa a política europeia, quer no plano governativo quer parlamentar. Quem não tiver apuradas qualidades negociais dificilmente sobrevive. Depois, um partido de origem regional (Ciudadanos) tem subido à escala nacional e manter-se como pivô de uma futura solução governativa. É antissistémico sem o ser, tem um líder novo mas não inexperiente, procura reformas e não ruturas. Se tiver êxito, será uma pedrada no charco. É por esta e outras razões que Espanha deve continuar a ter o nosso foco permanente.

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Anselmo Borges

Premium A mística do quotidiano.1

As férias são um justo tempo para repousar do trabalho, mas elas deveriam ser também, como diz o próprio étimo, a experiência de que o ser humano é um ser festivo e, assim, na serenidade, serem o tempo de reencontrar tempo para a família e para os amigos, tempo para ouvir o silêncio, tempo para a poesia e para a música, que nos remetem para a transcendência. Isso: contemplar e criar beleza - é a beleza que salva o mundo, dizia Dostoiévski -, admirar uma simples folha de erva com o orvalho da manhã, ver o Sol nascer a oriente e pôr-se a ocidente, exaltar-se com o alfobre das estrelas - "Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior persistência delas se ocupa a reflexão: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim", escreveu Immanuel Kant -, dialogar com o Infinito. Em tempo de férias, é bom parar e ir ao essencial, para se poder evitar o pior: o desnorteamento, a desorientação, o vazio existencial. O essencial, de um modo ou outro, é em Deus que se encontra, mas numa experiência pessoal. Como no amor.