A queda dos anjos

Não é Lula ou Dilma que estão em declínio, mas uma certa esquerda latino-americana. Digo certa porque há nuances, entre as quais a social-democracia no Chile ou no Uruguai. No resto, a Venezuela é hoje um Estado falhado que só Nicolás Maduro não reconhece, a Argentina virou à direita nas presidenciais e até Cuba está num processo contrarrevolucionário em curso, mais aberto a Washington do que a Caracas. Colômbia e México são economias abertas e com governos mais ou menos liberais, e até Evo Morales perdeu há poucas semanas um referendo que lhe permitiria candidatar-se a um quarto mandato. A verdade é que o Brasil é estrutural na região e a sua saúde económica, popularidade dos líderes e exposição à corrupção têm reflexos continentais. É por isso que as acusações a Lula e o declínio de Dilma são uma tempestade perfeita para lá das fronteiras brasileiras. Por um lado, mostra a queda de um anjo da esquerda profunda, de um símbolo tornado ideologia de Estado, que mesmo com méritos atingiu a falência dos seus limites. A mistura explosiva entre poder desmesurado, nomenclatura corrupta, esquemas de financiamento ilícito e podridão na administração pública ligaram Lula e o lulismo à desgraça. Por outro lado, também mostra como é ilusória a passagem de testemunho presidencial quando à criação falta o que o criador tinha a mais. Dilma e Maduro são fracas figuras comparadas com Lula e Chávez e jamais poderiam prolongar os excessos de personalidade política que estes dois transportavam por inerência. Os seus ocasos, mesmo que ainda mal assumidos, abrem pelo menos espaço a redefinições à esquerda e aproximam as direitas do poder. Quer isto dizer que as mudanças em curso na América Latina podem implicar novos alinhamentos externos? Não é ainda evidente. O que é claro é que Portugal tem de seguir o que lá se passa ao segundo. De certeza que Espanha já o faz ao minuto.

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