A perigosa rota da Turquia

A Turquia regressa amanhã às urnas depois de os resultados de junho não terem gerado a formação de um governo. Perdida a maioria absoluta face à entrada no Parlamento do partido pró-curdo (HDP), o AKP de Erdogan viveu estes meses com o chão a fugir-lhe. O sonho da presidencialização constitucional do regime foi adiado, a emergência curda institucionalizou-se e popularizou-se e a contestação nas duas grandes cidades não parou. Desde então, o AKP foi lesto a desenhar uma estratégia agressiva para tentar recuperar a força perdida. O mais provável é que não saia premiada. Erdogan tratou de ligar ataques do PKK à presença decisiva do HDP no Parlamento, associando movimentações curdas na Turquia a congéneres na Síria e no Iraque. Para miná-las, fez duas coisas: abriu fogo ao PKK, implodindo o roteiro político em curso, e reforçou os ataques na Síria, evocando a cooperação internacional anti-ISIS, mas prejudicando as milícias curdas, as únicas até aqui com sucesso nessa frente. Ainda neste clima, regressaram os ataques suicidas em cidades turcas, a maioria contra manifestações civis pró-curdas e atribuídas a elementos do ISIS. Ao ambiente de guerrilha interna a Turquia acrescentou-lhe o da perseguição escancarada à liberdade de imprensa. O cerco aos media próximos do império Gülen - em tempos apoiante do AKP, hoje inimigo de estimação de Erdogan - veio dar nova roupagem ao putinesco aparelho que faz da Turquia o país com mais jornalistas presos no mundo. Quem admira a Turquia, o seu povo e a quer na União Europeia não pode fingir que o país não está num rumo perigoso. Internamente, pela desorientação provocada por excesso de poder. No exterior, pelo contexto dantesco da vizinhança e que levou a Istambul mais refugiados sírios do que ao conjunto dos Estados membros da UE. Amanhã saberemos se esse rumo tem estrada paralela ou se esbarrará, com o tempo, numa parede.

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