A passada russa

Se dúvidas sobrassem sobre a verdadeira intenção de Putin na Síria, o anúncio da retirada militar parcial russa prova a real motivação: ajudar Assad, expandindo o seu controlo territorial por cidades em disputa com grupos da oposição sunita, e não, como Putin quis fazer passar, destruir o ISIS e as suas possessões que por lá continuam. E, assim, missão parcialmente cumprida. As tropas de Assad estão às portas de Palmira, embora não tenham recuperado terreno ao ritmo que esperavam. Nesse sentido, a retirada russa é também um sinal para o regime: connosco avançam, sem nós definham; logo, cumpram as nossas diretivas nas negociações internacionais. Este ponto é importante para Putin, porque desde o início da operação aérea (setembro de 2015) que a Rússia alcançou um estatuto de paridade com os EUA como elementos decisivos nos roteiros político ou de cessar-fogo. Ora, para Putin isto inverte o sentido de isolamento pós-Crimeia, expõe os limites do poder americano e restitui a Moscovo uma esfera decisiva de atuação entre a Europa de Leste, o Cáucaso, o mar Negro, o Cáspio e o Mediterrâneo Oriental. Durante estes meses, Putin retirou ainda a Turquia da equação final síria ao tornar aceitável a continuidade de Assad para europeus e americanos. A crescente exposição turca aos terrorismos da região valida a importância da estabilidade do regime sírio e da frente anti-ISIS, empreitada em que Ancara tem no mínimo um comportamento dúbio. Ainda nestes meses de bombardeamentos russos na Síria o número de refugiados para a Europa aumentou em comparação com igual período em 2015 - sobretudo via Turquia e Grécia - abrindo ainda mais feridas na coesão europeia, levando a legislação restritiva, mostrando os seus discípulos e criando a falsa mistura entre refugiado e terrorista. É uma passada larga a de Putin, mas está a fazer o seu caminho.

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