A outra eleição

Fala-se pouco nela, mas a eleição para o Senado é tão ou mais importante do que a da Casa Branca. Não está a ser travada no mesmo charco e não aconchega o ângulo europeu que se entretém a pôr os ovos todos do poder na cesta presidencial, mas pode definir o modo e o alcance do exercício do próximo presidente. Uma coisa é certa, vença quem vencer, não haverá um só segundo de estado de graça, luxo que a política atual não tolera.

A maré negativa, caluniosa, mentirosa, trafulha, radical, insubordinada e asfixiante que mancha esta campanha não augura nada de bom. Se perder, Trump já disse não reconhecer o resultado, abrindo uma ferida constitucional e antidemocrática. O FBI entrou em jogo e não vai largar Hillary, tal como um Congresso de maioria republicana. Se Trump ganhar, o corte com a estabilidade institucional será agravado com um provável desrespeito hierárquico na administração, oficializa-se o discurso do ódio e não haverá minuto sem que a imprensa e a máquina democrata não revirem a sua vida. Nem mesmo um Congresso republicano lhe dará tréguas. É aqui que entra a corrida para o Senado, cuja maioria pode perfeitamente regressar aos democratas.

Se assim for, fica mais fácil ratificar o juiz indicado por Obama para ocupar a nona cadeira no Supremo, aprovar tratados internacionais que assegurem o compromisso com o multilateralismo vigente, formalizar nomeações de embaixadores em capitais-chave e, não menos relevante numa era lamacenta, concluir o processo de impeachment. Impeachment?, dirão os leitores. Sim. A brasileirização da política americana não é tão descabida assim e nas duas únicas vezes em que quase aconteceu (Andrew Johnson, em 1868, e Bill Clinton, em 1998), ambos os democratas foram salvos pelo Senado. Veremos se Trump ou Hillary não precisarão dele novamente.

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