A marcha lenta do frentismo

Mesmo que não vença nenhuma região na segunda volta, Marine Le Pen é já a grande vencedora da política francesa. A questão é se será nos próximos ciclos eleitorais. Sabemos que o sistema beneficia os dois grandes partidos (Socialista e Republicano) e restringe o acesso ao poder e ao orçamento de partidos das franjas. Em tese, o sistema favorece a estabilidade nacional e a continuidade euro-atlântica da França. Só que, na prática, o mesmo sistema torna inatingível à Frente Nacional traduzir seis milhões de votos em lugares, consolidando a cada eleição uma frente anti-Frente. Isto tem duas consequências: primeiro, coloca a FN no centro do debate político e da incongruência do sistema eleitoral; segundo, alimenta o sentimento de injustiça política e de desprezo pelo eleitor, que nunca vê o seu voto conquistar representatividade. Ou seja, reforça o quadro de exclusão que já percorre muitos eleitores da FN e torna as reivindicações de Le Pen mais pertinentes aos olhos de quem a segue. Por isso ela vencerá estas eleições mesmo que perca para o voto útil nos outros partidos: a sua mensagem continua a enraizar-se entre muitos franceses, como prova a triplicação de votos entre as regionais de 2010 e esta primeira volta, e a sua popularidade aumenta em contraste com as duas principais caras do sistema e seus diretos adversários, Sarkozy e Hollande. Desta forma, o que pode ser mais um momento de voto de protesto no governo (qualquer intercalar) transforma-se lentamente num voto de convicção na FN, capaz de levar a sua líder ao Eliseu daqui a uns meses. Então, como vai Le Pen explorar um possível infortúnio? De três formas: continuar a financiar-se na Rússia, aumentar os decibéis da frente anti-UE que lidera no Parlamento Europeu, vociferar contra o sistema eleitoral francês. Os frentismos continuarão a marchar na segunda-feira.

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