A grande purga

Estamos a assistir a uma situação sem precedentes na Arábia Saudita das últimas décadas. A habitual previsibilidade política interna e o secretismo em redor das principais decisões deram lugar a uma purga no coração do aparelho de Estado com ecos detalhados sobre os seus intervenientes. O reino foi sempre um Estado policial absolutista mergulhado em dinheiro, mas o que temos visto é a tentativa de reescrever esses dois parâmetros por outros meios.

Por um lado, a exposição desta purga alargada contraria a forma recatada com que se anulava o poder a alguém sem cair numa humilhação pública. Por outro, Riade tem visto o impacto que a era do pós-barril a cem dólares tem causado nas contas públicas, além da entrada de novos atores no mercado da produção internacional, estabilizando assim o preço na casa dos 40/50 dólares. Os planos a médio prazo para a diversificação da economia, a par da intenção de forçar a subida do preço do barril a curto prazo - atingiu um pico de 64 dólares nesta semana, o máximo em dois anos -, são orientações que o novo homem-forte do regime quer acelerar. Sobre isto é importante recordar que o FMI aponta para 84 dólares o valor do barril de forma a que as receitas sauditas atinjam um equilíbrio, o que pode significar que no horizonte próximo vejamos mais alguns elementos de risco político a inflacionar esse preço.

Para tal, Mohammad bin Salman (MBS), filho predileto do rei Salman e obreiro desta purga, precisa de fechar o círculo próximo do poder aos seus diretos concorrentes, colocar homens da sua confiança em posições-chave, alterar alguns dos pilares da economia saudita e, sobretudo, garantir uma outra posição de força no Médio Oriente no confronto direto com o Irão. Nenhuma destas vertentes deve ser, por isso, vista isoladamente: o que esta semana nos mostrou foi a convergência acelerada e visível entre todas elas.

Primeiro, a purga. O nome mais sonante é do líder da Guarda Nacional, Mutaib bin Abdullah, filho favorito do anterior rei Abdullah e responsável pelos cem mil homens que protegem a família real de golpes e revoluções. Outros nomes importantes são o príncipe Al-Waleed bin Talal, próximo também do anterior monarca, dono de importantes participações em grandes empresas americanas (Twitter, Apple, Citigroup) e visto como um promotor de reformas concorrente de MBS; o chairman do Grupo Binladin, meio-irmão de Osama, e um imenso conglomerado no setor da construção; Waleed al-Ibrahim, dono da MBC, a maior rede por satélite do Médio Oriente; Ibrahim al-Assaf, ministro das Finanças entre 1996 e 2016; Amr al-Dabbagh, que dirigiu a agência saudita para o investimento durante oito anos; Saleh Kamel, bilionário que dirige o Dallah al Baraka Group, um dos maiores do Médio Oriente; ou Adel Fakieh, antigo ministro da Economia e um dos autores da agenda de transformação económica para 2030. Depois de detenções silenciosas no início do verão terem batido à porta de dois outros filhos do anterior monarca e de vários clérigos wahabitas, a corrida de MBS à concentração de poder acelerou nestes dias. Lembro que já detém a pasta da Defesa e, se passar a controlar a Guarda Nacional, garante todo o aparelho securitário e político do regime. A habitual divisão de áreas pelos ramos da Casa Saud pode ter chegado ao fim.

Mas se esta é a dimensão interna pela qual MBS está disposto a correr todos os riscos, há uma outra em curso no plano externo cujos efeitos são muito mais perigosos. A primeira dessas faces chama-se cerco ao Qatar, abordado nesta coluna em junho e motivado por três questões: falta de solidariedade do Qatar contra o Irão, concorrência inaceitável em Riade com outros lugares sagrados do sunismo, e a disputa de Doha do papel liderante saudita na política interna do Egito e da Síria. Diga-se que o cerco não tem gerado o resultado que Riade esperava e, também por via disso, o seu grande promotor, MBS, deu o passo seguinte em direção à segunda face.

Assim, de forma inédita, as televisões sauditas anunciaram a demissão do primeiro-ministro libanês, Hariri, antes mesmo de este o ter feito. A razão de deixar cair alguém próximo de Riade? Fim da paciência saudita com a complacência libanesa face ao poder do Hezbollah no governo do Líbano. Para terminar de vez com essa preponderância xiita, os sauditas têm em cima da mesa sanções económicas ao Líbano ou outras cirúrgicas a políticos que tenham permitido a ascensão do Partido de Deus, podendo mesmo em último caso transformar o país num novo teatro de guerra atraindo Israel e Irão um contra o outro, ou até mobilizar os sunitas nos campos de refugiados libaneses (onde está concentrada hoje um terço da população total do país em situação de rutura) contra o grupo xiita.

A terceira face centra-se no Iémen, mergulhado em guerra civil e numa tragédia humanitária com pouca atenção mediática, num confronto sangrento entre a maioria sunita apoiada por Riade e a minoria houthi com retaguarda do Irão. Como os sauditas consideram que essa ingerência xiita foi demasiado longe, lançaram uma ofensiva militar mais robusta sob a liderança de MBS. Há dias, a guerra do Iémen chegou a Riade, quando um míssil lançado pelos houthis foi intercetado não muito longe da capital saudita. É provável, por isso, que a guerra no Iémen entre na sua pior fase.

MBS tem 32 anos. Se o atual rei abdicar em seu favor, como já se especula, tem um horizonte de liderança impressionante. O risco que agora corre para consolidar o poder absoluto parece calculado, mas erros, sobre-exposição, respostas de inimigos e fatores externos podem mergulhar esse plano num caos. Não estamos habituados a isso quando falamos da Arábia Saudita.

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