A geração Oslo

O reacender da violência em Israel levou muitos a apontar a abertura da terceira Intifada.

Quem segue o Médio Oriente com o mínimo de atenção tem a sensação de que se vive numa Intifada permanente, definida pela dinâmica incontrolável do "olho por olho, dente por dente" entre israelitas e palestinianos, estejam estes a viver em Jerusalém, na Cisjordânia ou em Gaza. A verdade é que este clima enquadra-se no que pode ser descrito como a morte lenta dos Acordos de Oslo. Em 1993, Clinton mediou um roteiro de paz que se esperaria duradouro e exequível, negociado entre Arafat e Rabin, e que entre outras coisas legitimava o papel soberano da Autoridade Palestiniana, o reconhecimento do Estado de Israel, a retirada de tropas de Gaza e Cisjordânia, a renúncia ao terrorismo e um conjunto de outros pontos todos eles tão difíceis de dirimir que ainda estão bloqueados. Desde então, com diferentes ritmos e graus de insistência, as duas partes foram degradando Oslo por uma única causa, comum aliás: a sobrevivência. Seria exaustivo elencar exemplos da erosão desse acordo de paz (nunca reconhecido pelos extremistas dos dois lados), mas é relevante para o momento atual lembrar o seguinte: é a geração perdida de Oslo quem está nas ruas de Jerusalém. São os nascidos depois de 1993 quem dão a cara e o corpo pela violência anti-israelita e pela punição antipalestiniana. Conheci vários quando lá estive no ano passado. Esta é a base de uma pirâmide na qual os líderes políticos tudo têm feito para se fatiarem mutuamente. Se pensam que Netanyahu é o falcão de serviço, vejam o que defendem outros membros do seu governo. E se pensam que Abbas é o anjo de Ramallah, oiçam o que ele disse sobre o bom acolhimento ao sangue derramado em Jerusalém. Não há mudança entre as partes com estas personagens. Nem negociações, nem paz. A geração Oslo que o diga.

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