À espera de Trump

Além de um nacionalismo destemperado, que mais têm em comum Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu? Ambos estão calmamente à espera de que Trump tome posse. Na semana em que Washington condenou abertamente (mas não pela primeira vez) a expansão dos colonatos e fez questão de se distinguir (mais uma vez) do rumo ideológico do governo israelita, a Casa Branca foi bastante mais perentória quanto à acusação do envolvimento de Moscovo na campanha eleitoral americana, sancionando os seus serviços secretos e expulsando mais de três dezenas de diplomatas russos. No fundo, a administração Obama subiu o nível das sanções em curso contra Moscovo, aprovadas no rescaldo da anexação da Crimeia, antes que Trump as procure anular de vez. Se Telavive respondeu acossada a um texto que não passará do papel e que foi aprovado, entre outros, pelo aliado russo, Moscovo agiu a dois tempos à decisão de Obama. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Lavrov, quis imediata reciprocidade na expulsão de diplomatas, mas foi desautorizado por Putin, que, com outro calculismo, congelou essa resposta, obrigando assim a administração Trump a definir com outra rapidez os termos da nova relação, num gesto de plena confiança com o que aí virá.

Há quem diga que Obama fez tudo mal, que as suas decisões são inconsequentes, deslaçadas e que espelham o que foi a sua política externa. Discordo. Em primeiro lugar, porque até terminar o mandato o presidente pode e deve manter a agenda intacta e sinalizar, se necessário for, alguns pontos essenciais que caracterizaram a sua conduta externa. Um deles foi uma clara e assumida distância face ao nacionalismo agressivo de Netanyahu. Claro que o primeiro-ministro israelita sempre tratou essa animosidade como uma postura anti-israelita, agravada pelo sentido de cerco com que sempre definiu o acordo sobre o nuclear iraniano. Esse raciocínio está errado. Washington nunca deixou de ser o melhor dos aliados de Israel em matéria de segurança e o acordo com Teerão é a melhor forma de controlar as intenções nucleares do regime. O que a administração Obama tentou, embora sem sucesso, foi posicionar-se com alguma equidistância no quadro das relações israelo-palestinianas e até israelo-árabes. Se, no primeiro caso, não conseguiu manifestamente o espaço que precisava para mediar as disputas (que não passam só pelos colonatos), no segundo caso garantiu que o acordo de paz entre Telavive e o Cairo não fosse rasgado durante o processo revolucionário egípcio. Por outras palavras, Washington foi um sólido aliado de Israel durante os oito anos de Obama, já mais difícil seria pedir ao presidente americano que subscrevesse ideológica e politicamente as pegadas seguidas pelo governo de Netanyahu. O que Obama fez nesta semana foi reforçar essa distinção para memória futura.

Em segundo lugar, e tendo um relatório conclusivo em cima da mesa sobre os ataques cibernéticos russos ao longo de vários meses, podia Obama fingir que nada se passara? Claro que não. Até porque, quando falamos da estratégia do Kremlin, não estamos a falar de diletantismo iliberal e, como tal, não pode ser alvo de condescendência nem desvalorização. Pede--se ao presidente americano que defenda a democracia americana, não que seja cúmplice da sua erosão e minagem com uma origem externa entretanto definida. O que Obama quis sinalizar com as medidas ao aparelho de segurança e espionagem russo foi o seguinte: intromissões no sistema político americano têm um preço e a Casa Branca não protela reações por estar a vinte dias de terminar funções; além disso, o caudal de agressividade da Rússia de Putin na Europa e nos EUA é uma linha hipersensível entre as hostes republicanas e uma divisória clara entre o encantamento de Trump com Putin e a repulsa que as instituições americanas devem manter em face da estratégia do Kremlin.

Assim, desta forma, Obama acaba por construir uma frente bipartidária no Congresso para condenar as atitudes russas, apoiar as sanções americanas, gerar uma comissão de inquérito aos ciberataques e, não menos importante, evitar que Trump e o seu séquito fique à solta na revogação das sanções e na conceção dos termos da relação com Moscovo. Por outras palavras, Obama sinalizou uma distinção clara entre uma democracia liberal e um regime autoritário, além de condicionar o mandato do próximo presidente, cada vez mais próximo de Putin do que do próprio Obama. Nenhuma democracia, por período menos bom que atravesse, sobrevive à traição dos seus, e a América de Trump não será exceção.

Se há crítica a fazer à administração Obama não é ter sancionado a Rússia, mas ter desvalorizado o alcance dos objetivos estratégicos de Putin. Washington está no direito de não considerar a Ucrânia e a Síria assuntos de interesse nacional prioritário, mas, dessa forma, acabou por conceder a folga que Moscovo precisava para se impor. E o preço a pagar quando se mistura retração estratégica e oportunidade putinista está à vista: começa na anexação de um território alheio, segue para o patrocínio partidário europeu, avança para uma carnificina sem limites numa guerra civil, intromete-se numa campanha americana, até inspirar o séquito do presidente eleito. A verdade é que Obama chegou tarde à ameaça russa e a Europa está agora mais à mercê do Kremlin do que nunca desde a implosão da União Soviética. E o ano ainda mal começou.

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