A candidata do GOP

Aparentemente a ideia central que sai da convenção democrata é a unidade, ou pelo menos a tentativa de projetá-la. Mas o que resulta de Filadélfia é mais do que isso. É a oportunidade de Hillary Clinton para alargar a plataforma que deu duas vitórias a Obama: minorias étnicas, jovens, mulheres e creative class, gente com educação superior, rendimentos anuais acima dos 75 mil dólares, formando um quarto do eleitorado em 2008 e onde Obama teve 60%. Para derrotar Trump, Hillary precisa também de chegar a republicanos que, apavorados com o seu candidato, não se importarão de engolir em seco e nela votar. Se olharmos para alguns dos principais oradores em Filadélfia, vimos Bernie Sanders, Bill Clinton e desiludidos do GOP como Michael Bloomberg. Dir-me-ão que Bloomberg foi um republicano (e democrata) atípico e que será difícil agradar a sanderistas e a republicanos moderados. De acordo. Mas é aqui que entra a agenda Clinton. Por exemplo, neste momento quem conquistou o establishment ideológico em segurança nacional e política externa foram os democratas, que estão a segurar quem tem peso na opinião pública sobre intervenções militares, terrorismo, dignidade das forças armadas, estabilidade das alianças e organizações internacionais. Mesmo tomado Hillary opções erráticas nalgumas destas áreas, tem sido ela a depositária desse escol, dado o delírio das tiradas de Trump. Muitos dos eleitores que habitualmente dão prioridade à segurança e à política externa viam no GOP o fórum realista dessa agenda. Trump deixou-os órfãos. E numa campanha onde um dos lados simboliza rutura institucional, disfuncionalidade hierárquica, agitação interdepartamental, vulnerabilidade externa, menosprezo negocial e até instabilidade económica, quem procura previsibilidade, estabilidade e continuidade será levado a votar Clinton. Não por convicção, mas por sobrevivência.

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