A 5.ª coluna de Putin

Bernd Lucke foi, em 2013, um dos fundadores da Alternativa para a Alemanha (AfD) trazendo um euroceticismo à direita alemã focado na oposição ao apoio financeiro a países da zona euro. A sua liderança durou até ao verão passado, altura em que 60% dos militantes escolheram Frauke Petry para os guiar. Tinha ficado claro que as finanças não entusiasmavam o séquito, era preciso marchar contra a vaga de refugiados e a abertura do governo CDU/SPD em acolhê-los. Para termos noção da viragem, o próprio Lucke teve de sair do partido que acusou de ceder à xenofobia, ao Pegida e a Putin. O resultado chegou há dois dias: a AfD ficou em segundo nas eleições da Saxónia e em terceiro no Bade-Vurtemberga e na Renânia-Palatinado. Mas mais do que a validação dessa linha partidária, estes resultados carregam uma linhagem geopolítica, porque o grande vencedor destas eleições chama-se Vladimir Putin.

Vale a pena começar por dizer que a benevolência com o presidente russo e o seu crónico iliberalismo extravasam os corações dos militantes da AfD. Ela está bem presente entre os neonazis do Pegida e do NPD, com um ódio visceral ao Islão, mas também à esquerda, no Die Linke, com quem partilham antiamericanismo, antiliberalismo, anti-UE e antiglobalização. Se o quadro partidário vai fazendo o seu caminho, subindo degraus em momentos específicos da política alemã, Moscovo tem sabido explorar o sentimento russófono na Alemanha para conduzir uma bem engendrada campanha de comunicação. Sempre são 4 milhões de falantes russos.

O melhor exemplo foi a maciça propaganda feita pelas agências noticiosas russas em redor da suposta violação de uma jovem de origem russa, em Berlim, às mãos de refugiados muçulmanos, história que veio a confirmar-se falsa mas que levou alguns milhares às ruas de Bade-Vurtemberga. Neste domingo, as urnas validaram a mentira.

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