2016 vs. 2008

Desde 1872, quando Victoria Woodhull formalizou pela primeira vez uma candidatura feminina à presidência dos EUA, que mais vinte e cinco mulheres o fizeram por diversos partidos, mas o facto é que só em 2016 um dos dois grandes tem uma mulher nomeada. A dimensão histórica desta eleição pode, tal como em 2008, ser o motivo que faltava para que novos eleitores se registem e engrossem a plataforma democrata. Tal como na histórica eleição de Obama, quando mais nove milhões de pessoas se inscreveram para votar, mobilizados por uma campanha singular, também Hillary pode beneficiar do momento único que é eleger uma mulher para a Casa Branca para disparar nas sondagens e na dinâmica pós-convenções. A questão é que nem Hillary é Obama nem Trump é John McCain. Barack Obama foi um outsider fulminante, que deslumbrou com a liturgia política, a simplicidade da mensagem, a mescla identitária, a força da juventude, a rutura com o cânone presidencial, aproveitando a fadiga dos anos Bush. Hillary tem 40 anos de serviço público, é uma aristocrata política, tem fantasmas que a perseguem e o clima de rutura em que mergulhou a América não a favorece. E se Obama defrontou McCain, senhor de temperamento moderado e realista, Clinton enfrenta um demagogo desbragado, em rutura permanente com o país, a sociedade, o partido, o exterior e até consigo. É mais difícil vencer em 2016 do que em 2008 por duas razões simples: a imprevisibilidade disruptiva de Trump dificulta ao adversário traçar uma agenda focada e simples; e o momento de tensão sistémica americano (expresso nos dois partidos) não favorece um candidato clássico, previsível e com linhagem. O desafio de Clinton está aqui: precisa urgentemente de focagem discursiva, evitar as rasteiras de Trump e de, aos 69 anos, mostrar que é possível inovar. Que a força esteja com ela.

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