Dick Cheney

Dick Cheney revelou, no Meet the Press da NBC, um conselho dado ao então chefe de gabinete de Obama, Rahm Emanuel: "Mantenham o vice-presidente sob controlo." Se as frequentes gaffes de Joe Biden ajudam a explicar o alerta, o que Cheney acabara de fazer era a auto-avaliação do cargo que ele moldou como nenhum outro. Dick Cheney foi o mais poderoso vice-presidente da história norte-americana e as suas memórias são hoje colocadas à venda.

Só tive acesso a excertos publicados pelo Politico e New York Times, mas o relatado é demonstrativo do perfil do número dois de George W. Bush: manipulador, intriguista, influente, doente e polarizador. Dois meses depois de tomar posse, Cheney assinou uma carta de renúncia ao cargo caso ficasse incapacitado devido aos recorrentes problemas cardíacos. Só Bush e um assessor sabiam da sua existência e o local onde a guardava. Não encontro fórmula mais subtil de manipular um presidente: marinar um final de vida para ser permanentemente contentado. Cheney polarizou e condicionou as diversas sensibilidades da Administração e não hesitou em deitar fora o chefe da diplomacia assim que se desviou ligeiramente da argumentação sobre o Iraque. A conhecida disputa entre Pentágono e Foggy Bottom, numa série de polémicas decisões, mostra como era forte o eixo Rumsfeld-Cheney na construção da narrativa da Administração e na concepção ideológica do uso da força para arrumações geopolíticas. No pós-11 de Setembro, momento que misturou a vulnerabilidade da superpotência e a necessidade de a transformar em músculo, Cheney encarnou o pior do excepcionalismo norte-americano: uma ingenuidade dogmática pronta a espalhar democracia pelo mundo e a instrumentalização militar para fins políticos incertos a lembrar um elefante numa loja de porcelanas. São preferíveis as gaffes de Joe Biden.

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