Ascensão pacífica?

Há dois dias, procurei trazer a percepção norte-americana sobre os investimentos militares chineses. Em resumo: soaram campainhas em Washington perante despesas que tornaram a China na segunda potência militar do mundo; receia-se instabilidade no Sudeste asiático provocada por essa ascensão e pela pouca transparência dos números revelados pelas autoridades chinesas. Importa, agora, vermos a argumentação de Pequim.

O Livro Branco de Defesa (2010) é claro na abordagem: não existe propensão para um comportamento militar expansivo, mesmo com grande crescimento económico. Ou seja, esta geração de governantes continua herdeira do "desenvolvimento pacífico" traçado por Deng Xiaoping como fio condutor da China moderna. Até aqui tudo bem, até porque Pequim tem um argumento interessante: a China é o único membro permanente do Conselho de Segurança com problemas de integridade territorial e isso exige modernização militar. No entanto, as contradições não estão bem oleadas e há poucas semanas, numa conferência em Londres, o vice-chefe do Estado-Maior do Exército Zhang Qinsheng levantava o véu: "O objectivo da modernização militar é transformar as nossas forças armadas numa força adaptável a múltiplos teatros e não só à defesa regional." É neste espaço de ambiguidade que reside a desconfiança norte- -americana, japonesa, vietnamita ou australiana. Percepção justificada e que torna os próximos anos particularmente importantes. A China deve ser uma "parte interessada responsável" da comunidade internacional, na expressão feliz de Robert Zoellick, mas a chegada ao poder da primeira geração de líderes a crescer numa China em paz e economicamente pujante desde o século XVIII dá-nos margem para especular sobre a forma como irão projectar essa mundividência ao serviço da grandeza nacional. Cabe ao Ocidente não a perder de vista.

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