O futuro do governo

Um governo mal engendrado foi-se organizando com o tempo. Em vez de se desgastar, o que é habitual, reforçou-se durante dois anos. A ponto de poder durar outros tantos. Mais do que isso é complicado. Quase impossível. Com efeito, a partir de 2018, inicia-se o processo de avaliação permanente: o que é mais vantajoso, manter ou romper? É a pergunta que se fazem, todos os dias, os socialistas, os comunistas e os bloquistas. No momento exacto em que um deles tiver a certeza de que manter o governo gera prejuízos eleitorais, será tomada a decisão de pôr termo a tão estranha forma de aliança política. Depois, segue-se a fase de concretização: é eleitoralmente mais interessante tomar a iniciativa de romper ou tudo arranjar para que seja "o outro" a fazê-lo? Este ano vai ser passado assim.

O partido maior faz as suas contas dia após dia. Enquanto conseguir misturar água e azeite, corre tudo bem. Durar é a palavra de ordem. Os dois pequenos partidos, espécies de "crentes mas não praticantes", estão também a fazer as contas ao que ganham e ao que perdem. É bom perceber que está em causa o poder, simplesmente o poder, não as causas ou os princípios filosóficos. Se fosse isso, este governo nem se tinha formado ou não duraria mais do que uns escassos meses. Guiados pelos grandes princípios, que dizem serem os seus, partidos tão doutrinários com o PCP e o BE não resistiriam a umas semanas de governo do PS. Europa e União, mercado e iniciativa privada, NATO e liberdade de expressão são mais do que suficientes para provocar todas as rupturas. Já o acesso ao poder e eventuais ganhos eleitorais são factores estratégicos de primeira importância. A fragilidade do PS, que precisa destes aliados para sobreviver e que o levou a ceder múltiplas vezes, foi um poderoso elemento que permitiu aos dois partidos ganhar votos e boa opinião. O problema é que agora também já estão a sofrer o desgaste dos socialistas. Algumas greves, o roubo de Tancos, os incêndios de florestas, a legionela, a corrupção, os casos extravagantes da EDP e da Galp, a Operação Marquês, a Raríssimas e o Infarmed têm provocado, nos dois pequenos partidos, prejuízos sem justa causa. O que se sabe é que já começaram a fazer contas.

A habilidade e a sorte de António Costa, em conjugação com as ambições do PCP e do BE e a boa conjuntura europeia, foram suficientes para manter o governo até agora. Mas o destino de António Costa não é razão suficiente para os pequenos partidos correrem riscos de vida.

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Adriano Moreira

O relatório do Conselho de Segurança

A Carta das Nações Unidas estabelece uma distinção entre a força do poder e o poder da palavra, em que o primeiro tem visibilidade na organização e competências do Conselho de Segurança, que toma decisões obrigatórias, e o segundo na Assembleia Geral que sobretudo vota orientações. Tem acontecido, e ganhou visibilidade no ano findo, que o secretário-geral, como mais alto funcionário da ONU e intervenções nas reuniões de todos os Conselhos, é muitas vezes a única voz que exprime o pensamento da organização sobre as questões mundiais, a chamar as atenções dos jovens e organizações internacionais, públicas e privadas, para a necessidade de fortalecer ou impedir a debilidade das intervenções sustentadoras dos objetivos da ONU.