Premium Será Berardo o último a rir?

Joe Berardo entrou-nos em casa para gozar com a nossa cara. A inconveniência, a sobranceria, a desfaçatez com que respondeu aos deputados dizem tudo sobre uma personagem que vive convencida de que o dinheiro não compra apenas um jardim de Budas, também pode comprar o estatuto de inimputável.

Joe Berardo é o típico jogador que atua nos espaços vazios. Dos interesses de terceiros, da letra da lei e, sobretudo, da legitimidade. Foi assim que ganhou o protagonismo na guerra pelo poder no BCP, quando explorou, para lá do limite do razoável, o interesse de Paulo Teixeira Pinto em acabar de vez com Jardim Gonçalves. Foi assim que conseguiu usar a Caixa Geral de Depósitos para travar essa mesma guerra, aproveitando a mão por detrás do arbusto, que manipulava o banco do Estado e que tão cara nos está a sair. Foi assim que atuou, no limite da legitimidade, quando usou a coleção Berardo para fazer chantagens sucessivas sobre o Estado português, ao mesmo tempo que se apresentava nas televisões como o grande mecenas que anunciava entradas gratuitas para ver a sua coleção pessoal. E foi essa a grande lição que nos deixou a semana passada no Parlamento: quando se tem dinheiro para pagar a bons advogados, tudo é possível em Portugal. Até ficar a dever e sair impune.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.