Os humanos devem estar loucos

Desculpem, mas ainda estou meio atordoado. Tenho a sensação de que levei com uma garrafa de Coca-Cola na cabeça, vinda do céu ou sei lá eu de onde. E não, não é apenas por causa do Sporting e do Bruno de Carvalho, que desejo que fique por muitos e bons anos naquele clube, apesar de ter pena dos meus amigos sportinguistas. (Se ficou irritado, siga já para o último parágrafo do texto.) É por tudo o que se passa cá dentro, mas sobretudo lá fora. Está tudo louco?

A implosão do Brasil

Os inimigos da democracia têm tudo a aprender com o Brasil. Da Operação Lava-Jato ao impeachment de Dilma, sem esquecer a ascensão de Michel Temer ao poder e agora todo o processo que atirou Lula da Silva para a cadeia, diria que é quase tão difícil acompanhar a atualidade brasileira quanto compreender a total disfuncionalidade daquele país.

Nada faz sentido. Defender que Lula, condenado por corrupção e branqueamento de capitais, não seja preso não faz sentido. Prender o mesmo Lula, sem que a lei seja integralmente cumprida, não faz sentido. Mesmo que pareça óbvio a toda a gente que o objetivo de Lula seria chegar ao Palácio do Planalto antes de chegar à cadeia. Tal como fez Temer, que, tendo chegado a presidente, evitou acabar atrás das grades. Não faz sentido ter juízes a fazer política e políticos a fazer justiça. Eis o país perfeito para Elina Fraga exercer os seus dotes de política. Um país onde a judicialização da política e a politização da justiça são tão banais quanto a ideia de processar um governo em funções porque se discorda de uma lei.

Isto para não falar de todo o enredo de novela brasileira (por algum motivo são tão bons nesse negócio). Protestos, confrontos, pessoas lavadas em lágrimas na rua, encontros secretos entre juízes e políticos, um Parlamento que parece um freak show, um condenado que se barrica num sindicato e ignora o prazo dado pelo juiz, vai à missa, faz um comício e só quando lhe apetece é que se entrega às autoridades.

No fim disto tudo - se é que tem um final à vista - sobra-me a mesma dúvida que sobra provavelmente a qualquer pessoa que defenda regimes democráticos sólidos e confiáveis: o que restará da democracia brasileira e quantos anos levará a reconstruir?

Viram por aí o ministro da Cultura?

Na saga da garrafa que me deve ter atingido o cocuruto sem que me tenha apercebido, ainda não recuperei do episódio entre o governo e os agentes da cultura. Portanto: o governo criou um novo sistema de candidaturas, até tinha mais dinheiro disponível mas houve menos contemplados. Até aqui, tudo bem - ou mal, segundo os artistas. Se o ministro da Cultura conseguisse explicar e defender o processo e garantir que as regras são sensatas e foram cumpridas ficaria descansado. Mas não. Numa primeira fase, explicou coisa nenhuma. Numa segunda fase, mandou o secretário de Estado explicar-se por ele, numa conferência de imprensa patética, onde disse estar espantado com a surpresa do primeiro-ministro. Isto porque António Costa tinha decidido intervir. Pegou no ministro e no secretário de Estado por uma orelha, levou-os ao castigo e entregou-lhes um cheque para resolverem o problema. A velha tática de atirar dinheiro para cima dos problemas, na esperança de que eles se resolvam. Só que não.

António Costa, que se gabava de ser o político mais cultural de sempre, neste como noutros casos, sacode a responsabilidade e finge não saber o que se está a passar. Já o ministro, Luís Filipe Castro Mendes, o melhor que consegue dizer sobre o sistema de candidaturas criado pelo seu próprio ministério é que se trata de um work in progress que tem coisas a corrigir, mas que Mário Centeno não lhe deu dinheiro para isso. Perante os protestos na cultura, o dinheiro apareceu, só que não foi Castro Mendes a consegui-lo. Foi Costa. O que só torna mais evidente que o peso político deste ministro é quase inexistente. Deste e de tantos outros.

A vergonha na RTP

Já não bastavam as guerras fratricidas político-sindicais capazes de triturar pessoas umas atrás das outras sem apelo nem agravo e agora a RTP está há mais de dois meses sem conselho de administração. Porquê? Porque o governo decidiu embirrar com a escolha do administrador financeiro indicado por Gonçalo Reis, presidente do conselho de administração. Acho muito bem que o governo queira "meter a mão", mas que o assuma. O Estado é o único acionista, e se o atual executivo não concorda com as regras, que as mude. Mas deixar uma empresa desta dimensão - e com esta importância - tanto tempo em gestão é uma irresponsabilidade.

Last, but not least...

Não sendo sportinguista, não consigo ficar feliz com o que se está a passar no Sporting - e não só. A alguém que, como eu, já foi "doente da bola", o que se passa no futebol português envergonha profundamente. Em várias dimensões, em vários clubes - incluindo no meu - e a vários níveis. O Sporting não tem uma crise. Tem um Bruno de Carvalho, que foi eleito e reeleito sem margem para dúvidas pela esmagadora maioria dos sócios. Podia dizer: aguentem-se à bronca. Mas não digo. Digo apenas que há dias em que penso: está tudo louco.

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