O que nasce torto...

1. É impossível olhar para o primeiro mês de Rui Rio à frente do PSD e fazer um balanço positivo. Não houve nada que não lhe acontecesse: primeiro "aconteceu--lhe" um Salvador Malheiro, depois "aconteceu-lhe" uma Elina Fraga, logo a seguir - pumba! - "acontece-lhe" um Fernando Negrão e agora, azar dos Távoras, "acontece-lhe" um Feliciano Barreiras Duarte. É preciso não ter muita sorte na vida, ou, vendo o copo meio cheio, estar a caminho de ficar na história... como o líder político com o pior casting de sempre.

É óbvio que não há coincidências. A forma como decorreu o Congresso do PSD, há precisamente um mês, indiciava que o partido não ia dar vida fácil a Rui Rio. O primeiro aviso foi logo no próprio congresso, com uma vaia a Elina Fraga. O resto veio depois e talvez não fique pela demissão do secretário-geral do partido.

Vamos arrumar com este assunto: Feliciano Barreiras Duarte não tinha outra alternativa senão demitir-se. Por todos os motivos e mais alguns, mas sobretudo porque se tornou politicamente tóxico para o partido e para o líder. Rui Rio, por sua vez, lidou pessimamente com o caso: primeiro tentou - sem sucesso - enterrar o assunto; depois hibernou, deixando Feliciano Barreiras Duarte sozinho, a levar "paulada" de todos os lados e durante vários dias.

O resultado destas guerrinhas de caserna é evidente: do primeiro mês de Rui Rio como líder do principal partido da oposição não sobra uma proposta, uma ideia e muito menos uma alternativa - por vaga que fosse - ao atual governo. Zero. Os primeiros 30 dias de Rio à frente do PSD resumem-se a uma sucessão de polémicas, histórias mal contadas, uma péssima (para não dizer inexistente) comunicação e uma gestão de crise ainda pior.

Se Passos Coelho era o cimento que unia as esquerdas, o PSD de agora arrisca-se a ser uma espécie de seguro de vida político para António Costa, a continuar por este caminho. E não digo "o PSD" para desresponsabilizar Rui Rio, que tem óbvias culpas no cartório, mas porque é evidente que o partido está num processo de implosão interna que o pode desgraçar ainda mais aos olhos dos eleitores. "O que nasce torto", já diz o povo, "tarde ou nunca se endireita". Se Rui Rio tem, de facto, a fibra que apregoa para virar o jogo, é o que veremos. Mas era bom que, entretanto, o principal partido da oposição se fizesse à estrada e começasse de facto a fazer oposição, em vez de se autodestruir. Era útil para o país e para a democracia que soubéssemos qual é a alternativa política do PSD. Talvez neste processo de hibernação, a que Rui Rio se remeteu desde que foi eleito líder do partido, esteja a ser preparada essa tal alternativa, uma espécie de plano secreto que um dia o país conhecerá. O tempo é que não joga muito a favor.

2. A propósito de coisas que nascem tortas, António Costa parece não ter aprendido nada com as tragédias (sim, no plural) dos incêndios de 2017. Nesta semana, no Parlamento, do nada, o primeiro-ministro decidiu encontrar um novo bode expiatório para os falhanços do Estado. "A péssima qualidade da informação", disse António Costa, "é um dos maiores problemas do país." A frase seria para rir se o assunto não fosse tão trágico e se isso não nos recordasse, imediatamente, a forma como o governo comunicou e informou o país durante os incêndios do ano passado.
A começar pelo ex-secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, que disse: "Se fosse consciente, fugia"; passando pela ex-ministra Constança Urbano de Sousa, que achou normal dizer: "Teria sido mais fácil ir embora e ter as férias que não tive"; e acabando - porque não? - no próprio primeiro-ministro, que dizia ser "um bocado infantil a ideia de que as consequências políticas são as demissões de ministros", para logo a seguir ver o Presidente da República demitir-lhe uma ministra em direto, no horário nobre das televisões. Sobre a habilidade deste governo para comunicar, talvez estejamos conversados.

Mas podemos conversar ainda sobre a qualidade da informação prestada, e começar por aquela que vem do próprio governo. Tomemos como exemplo a lei da limpeza das matas, com regras que ninguém conseguiu compreender à primeira, nem à segunda e, muitas vezes, nem à terceira. Uma lei que tem uma data-limite para ser cumprida, mas afinal era só a brincar e agora já foi prolongada. Que prevê a aplicação de multas para quem não a cumprir, mas que não passou de uma ameaça, porque o objetivo nunca foi multar ninguém. Isto sim é informação de altíssima qualidade. O país é que não sabe apreciá-la.

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