O julgamento político

1- Quase quatro anos depois, o PS decidiu finalmente ler a sentença política a José Sócrates - ainda dizem que é a justiça que é lenta. A investigação e o julgamento foi-se fazendo ao longo de todo este tempo, com advogados de defesa - os indefetíveis de Sócrates - e de acusação - os que, como Ana Gomes, nunca paparam grupos - a esgrimirem argumentos que ninguém levava a sério porque já ninguém consegue confiar no discernimento dos partidos políticos.

Ao PS oficial parecia faltarem provas de um comportamento ético e moral menos correto. Sim, talvez Sócrates até seja corrupto, talvez tenha lavado uns milhões, fugido ao fisco, mas nada disso estava provado. À justiça o que é da justiça, que enquanto o pau vai e vem folgam as costas e a política pode continuar o seu business as usual. Até que apareceu uma "prova" chamada Manuel Pinho. Como se, até aqui, este julgamento político dependesse apenas da figura de José Sócrates, do seu questionável modo de vida, como se fosse apenas uma coisa lá dele, que em nada coloca em causa o regime e a democracia.

Ora, o que está em causa, politicamente, não é apenas o comportamento do cidadão José Sócrates. É a atuação que ele teve, enquanto primeiro-ministro eleito pelo Partido Socialista, à frente do governo. O que está em causa é, como sempre foi, o próprio PS, por muito que os ratos agora fujam todos, por muito que os socialistas tentem proteger-se num cordão sanitário. Politicamente, estão todos contaminados. E não, António Costa não demorou quase quatro anos a perceber isto. Ele percebeu-o logo no dia 22 de novembro de 2014, assim que soube da notícia da detenção de Sócrates no aeroporto de Lisboa.

Mas se assim é, porque foi preciso este tempo todo para ler a sentença política a José Sócrates? Porque António Costa decidiu, desde o primeiro momento, deixá-lo a arder em lume brando na opinião pública. Nunca o defendeu, mas também nunca o julgou. Deixou-o "com a sua verdade" e aguardou. Aguentou o embate (e perdeu as eleições de 2015), mas soube sempre dar a volta por cima. O julgamento político de José Sócrates não se fez, foi-se fazendo. E chegou ao cúmulo de ter uma sentença ditada pelo próprio.

2- A questão que se coloca a seguir é a do julgamento político do próprio Partido Socialista. Se se comprovar que Sócrates foi um primeiro-ministro corrupto, isso significa que houve, necessariamente, um governo corrupto em Portugal. Não há governos de um homem só. Os governos têm ministros, têm secretários de Estado, chefes de gabinete, assessores, quase todos - senão todos - membros de um aparelho partidário. Assumindo que ninguém desconfiou, ninguém estranhou, ninguém percebeu bem o que se estava a passar, assumindo que, depois de 2005, o momento era de euforia e que todos quiseram surfar a onda de uma maioria absoluta, de um governo-espetáculo que parecia indestrutível, o julgamento político não pode ficar-se pela "vergonha", pela "raiva" e pela "desonra". Tem de ter uma pena, uma consequência dentro do próprio partido.

O PS não pode, não deve passar por isto e deixar tudo na mesma. Tal como escrevi há uma semana, mais do que grandes atos de contrição públicos - que também são necessários - é preciso preencher os vazios e evitar, de futuro, que outros usem os partidos políticos em proveito próprio. Há um julgamento político por fazer no Partido Socialista e António Costa tem uma escolha pela frente: pode ficar na história como o líder que teve a coragem de agir, ou como o secretário-geral que andou entre os pingos da chuva e contribuiu, por inação, para o desgaste de um dos partidos mais importantes do nosso regime democrático.

3- Deixo Manuel Pinho para o final, propositadamente. O chamado "independente" da política, como já houve tantos e de quem os partidos políticos tanto se orgulham. Os "independentes", tantas vezes mais dependentes do que os próprios militantes, servem frequentemente de bandeira aos partidos para mostrarem à sociedade que são capazes de atrair gente nova e capaz, "novos quadros" que trazem à política um saber que é cada vez mais escasso.

Manuel Pinho foi sempre uma figura peculiar e não apenas pelo par de chifres que simulou no Parlamento e que levou à sua demissão. Na forma e no conteúdo, o homem que vinha do BES fazia parte do governo-sombra de José Sócrates, um guru da política económica que o Partido Socialista queria implementar no país.

O desengonçado Pinho, que se deixou fotografar com Michael Phelps numa piscina e foi tantas vezes alvo de chacota pública, foi o ministro que inventou o AllGarve (Algarve para todos). Mas foi também o ministro que decidiu os PIN - Projetos de Interesse Nacional -, que renegociou rendas da energia e abriu vários concursos para as energias renováveis. E foi o ministro que fechou o acordo com os acionistas da Galp, acabando com uma guerra que durava há muito tempo. Manuel Pinho tinha muito poder. E quem lhe deu esse poder foi José Sócrates, secretário-geral do Partido Socialista.

Também aqui há uma reflexão e um julgamento político por fazer. É que os independentes fazem, de facto, falta à política, mas os altamente dependentes, sejam eles quem forem e venham eles de onde vierem, não só não fazem falta nenhuma, como também devem ser julgados, politicamente, por nós todos. A começar nos partidos que os recrutaram.

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