O abraço do urso (II)

Quem é o urso e quem está a ser abraçado? A pergunta que deixei por responder, na semana passada, assentava na estratégia de Rui Rio - se é que ela existe nestes termos - de demonstrar abertura para discutir com o Partido Socialista matérias estruturais para o país, ao mesmo tempo que procura apresentar um projeto alternativo. Esta estratégia pode ter o mérito de mudar a perceção do eleitorado que se afastou do PSD nos últimos dois anos, mas, como qualquer estratégia, também tem riscos elevados.

E o segredo está exatamente no tal projeto alternativo. Rio tem a difícil tarefa de explicar a um país que está a crescer, que tem visto o desemprego a cair e as contas públicas a endireitarem-se que consegue fazer melhor e, sobretudo, que será um primeiro-ministro mais qualificado e mais confiável do que António Costa. E, até agora, sabe-se pouco sobre o que quer Rui Rio e qual é o tal projeto que tem para o país.

Se falhar nesta tarefa, o abraço do urso será de António Costa ao PSD. Assente na convicção de que os eleitores votam frequentemente com a carteira (um cliché que se mantém verdadeiro), o capital político das reversões, devoluções e aumentos desta legislatura será todo usado durante as campanhas eleitorais do próximo ano e, seguramente, renderá mais votos ao PS do que ao Bloco de Esquerda ou ao PCP. António Costa nem precisa de se esforçar muito. O aumento do consumo e da concessão de crédito falam mais do que mil discursos. Acresce que Costa agora sabe que tem no PSD uma espécie de boia salva-vidas.

Ao contrário do que muita gente no PSD e no CDS pensa, o PS não se tornou um partido exclusivamente de esquerda por causa da geringonça. Os entendimentos com o Bloco e com o PCP foram apenas a forma que António Costa encontrou para chegar ao poder e o meio de estes dois partidos expulsarem Pedro Passos Coelho. É um entendimento con- juntural (e irrepetível, como Jerónimo e Catarina Martins já avisaram) que mudou, de facto, a prática político-constitucional, como diz Assunção Cristas, mas que não tornou definitivo em Portugal a criação de dois grandes blocos: esquerda e direita, fazendo desaparecer o centro.

O centro existe, sempre existiu e, estou em crer, nas próximas eleições legislativas isso ficará demonstrado. A questão está em saber quem é que o vai conquistar. António Costa, Rui Rio ou... Assunção Cristas?

O CDS percebeu isto muito antes do PSD e a estratégia de Assunção Cristas é muito simples: expurgar do discurso político tudo o que possa colar o partido mais à direita (sobretudo nos costumes) e aproximar-se o mais possível do centro. Ter um programa tão abrangente e consensual quanto possível, que seja capaz de ir buscar eleitorado da esquerda à direita e, sobretudo, ao centro.

Cristas procura jogar no espaço vazio deixado pelo PSD e pelo PS. Claro que, oficialmente, o adversário é o PS, mas ninguém no CDS ignora que um PSD fraco torna o crescimento dos centristas muito mais fácil - e as autárquicas em Lisboa são o melhor exemplo disso mesmo. Cristas sabe que ser de centro-direita não é incompatível com ser democrata-cristão. Mas também sabe que afirmar uma coisa ou outra cria perceções diferentes no eleitorado.

O CDS sai do congresso deste fim de semana, em Lamego, com uma ambição que parece desmedida, mas que, na verdade, é apenas inteligente. Em 2019, o partido arrisca-se a sair sempre a ganhar. Se o PSD de Rui Rio se conseguir afirmar e conquistar o espaço perdido por Passos Coelho, ao CDS basta fazer o seu trabalho e contribuir para os tais 116 deputados que são precisos para os dois partidos voltarem a governar. Se a estratégia de Rio falhar, o CDS tem mais hipóteses de crescer e tornar-se mais relevante na oposição. Se for assim, Rio corre o risco de levar o abraço do urso à esquerda e à direita.

Por isso, a pergunta mantém-se: quem vai dar o abraço do urso a quem? Se, neste momento, tivesse de responder à pergunta que eu próprio coloquei, diria que é mais provável ser António Costa a dar o abraço do urso a Rui Rio do que o contrário. Mas ainda é cedo. Muito cedo.

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João Gobern

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