Em nome do défice

Uma das maravilhas da política económica é a possibilidade que nos dá de ver o copo meio cheio ou meio vazio. Depende sempre das circunstâncias de cada um e - já agora - da honestidade intelectual. É por isso que os números do défice, do PIB ou do desemprego têm sempre leituras diferentes. Quem está no poder tenderá sempre a ver o copo meio cheio. Quem está na oposição vê-o meio vazio.

Desta vez, não há volta a dar. O défice de 2017 é de 0,9%, o mais baixo da história da democracia. Querer meter nestas contas a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos é um exercício pouco sério, que o PS, diga-se, também já fez no passado a propósito de outros bancos e de outras contas. A história guardará os números e a política encarregar-se-á sempre de os lembrar da forma mais oportunista que conseguir. Nós, que pagámos e pagamos a fatura de um défice historicamente baixo, temos a obrigação de guardar memória do caminho de pedras que foi percorrido até aqui chegar.

Em nome do défice, saem de Portugal mais de cem mil pessoas por ano. Homens e mulheres que fogem de um país que não é para velhos mas também não é para novos. Onde as escassas oportunidades de emprego são pagas a valores indignos, que nos deviam fazer corar de vergonha. Onde as desigualdades são uma das marcas mais características.

Em nome do défice, atiraram-se para o desemprego milhares de pessoas, destruíram-se negócios, famílias, vidas.

Em nome do défice, exige-se a quem trabalha cerca de 50% dos rendimentos. Não se perdoa uma multa, um dia de atraso, um cêntimo de juros. Nada chega, nunca chega. O défice exige criatividade e o mundo dos impostos é vasto. Com nomes diferentes, até se podem cobrar dois pelo mesmo produto.

Em nome do défice, permitiu-se a degradação do Serviço Nacional de Saúde. Das condições de trabalho dos seus profissionais e de dignidade dos seus utentes. Permitiu-se que milhares ficassem à espera de uma cirurgia e que outros tantos penassem com dores, deitados em macas espalhadas pelos corredores dos hospitais públicos. Por falta de espaço, por falta de condições, por falta de bom senso.

Em nome do défice, quem depende de cuidados continuados não os tem quando precisa. E quem precisa de uma creche não a encontra quando tem filhos. A não ser que pague. E muito.

Em nome do défice, desinvestiu-se na escola pública e no ensino superior. A educação passou a ser uma folha de Excel que contabiliza o custo por cabeça, numa estratégia sem pés nem cabeça.

Em nome do défice, deixaram--se as Forças Armadas desarmadas. Sem vigilância nem segurança. As esquadras de polícia sem condições e onde resta a dignidade dos que, mal pagos e maltratados, ainda colocam o sentido de dever acima de tudo.

Em nome do défice, deixaram-se entupir os tribunais. Permitiu-se uma justiça cara, lenta e tantas vezes injusta, pela manifesta falta de meios humanos.

Em nome do défice, deixaram-se arder milhares de hectares de floresta, permitiu-se a destruição de empresas, casas e campos agrícolas. Em nome do défice, morreram pessoas nesses fogos. Foi também o défice que as matou.

Em nome do défice, gastámos 17 mil milhões de euros na banca. Não vale a pena decorar este número porque o mais provável é ele ainda estar muito aquém do seu valor final. 17 mil milhões de euros foi quanto o Estado injetou, em oito anos, nos bancos, nuns casos para os salvar, noutros para pagar os devaneios, a má gestão e, aparentemente, os crimes de quem os geriu. 17 mil milhões de euros que não impediram a morte dolorosa de quatro desses bancos e os funerais que ainda hoje se fazem, pagos a expensas dos depositantes, dos trabalhadores que perderam o emprego e de nós todos, que direta ou indiretamente contribuímos para o cortejo fúnebre mais caro da história.

Houve um país que, em nome do défice, pagou e vai continuar a pagar durante muitos anos uma fatura demasiado pesada. E agora que chegámos ao défice mais baixo da história da democracia, encontro poucos motivos para estar orgulhoso e, muito menos, otimista. É que, se demorámos 44 anos para aqui chegar - e mesmo que daqui a um ou dois anos o país tenha superavit -, imaginem quantos anos vamos demorar a reduzir uma dívida que é de 130% do PIB.

Não, je ne suis pas Centeno. Não porque não lhe reconheça o mérito de nos ter trazido para o défice mais baixo da história da democracia, mas porque vejo um país que não aprendeu nada com o que lhe aconteceu. Onde a loucura do crédito fácil e do consumo voltou a sobrepor-se à criação de riqueza e de uma economia sustentável a médio/longo prazo. Je ne suis pas Centeno, nem Costa, nem Rio, nem Cristas, nem Catarina Martins, nem Jerónimo, enquanto não vislumbrar um plano, uma estratégia, uma mudança de paradigma económico.

Em nome do défice, da dívida e de um Portugal com futuro.

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Anselmo Borges

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