Costa tem muitos amigos, mas nenhum como o PSD

Com a chegada de António Costa ao Governo, o país ficou a conhecer-lhe alguns dos melhores amigos. De Diogo Lacerda Machado a Siza Vieira, todos eles foram notícia pela ajuda que têm dado ao Primeiro-ministro e pelos cargos que ocupam. Mas a verdade é que o melhor amigo de António Costa tem sido, desde o primeiro momento, o PSD. E se esta "amizade" se mantiver, é bem possível que Costa fique a dever aos sociais democratas um lugar na história.

Pensar que foi António Costa o grande obreiro da geringonça é um erro crasso. O que está na génese da coligação improvável entre PS, Bloco de Esquerda, PCP e PEV é, na verdade, o PSD. Foram os erros de Passos Coelho, aliados ao ódio inestimável dos partidos à esquerda aos sociais democratas, que juntaram os quatro partidos e permitiram a António Costa ter uma maioria parlamentar. Com claras vantagens para o país, diga-se, em várias dimensões, mas, sem a ajuda do PSD, António Costa provavelmente não teria sido Primeiro-ministro.

Enquanto existisse Passos Coelho no PSD, António Costa tinha mandato assegurado. Como muitos já escreveram - e eu subscrevo - Pedro Passos Coelho era o principal cimento da geringonça. O objetivo era manter o ex-líder do PSD longe do poder, por tudo o que ele representava para a esquerda.

A saída de cena Passos Coelho em 2017 coincidiu com a derrocada eleitoral do PCP nas autárquicas e com o início da pré-campanha eleitoral para as legislativas de 2019. A geringonça começou a descolar. Primeiro porque perdeu o seu o cimento e depois porque o PCP e o Bloco de Esquerda começaram a perceber que quem estava a capitalizar melhor os bons resultados da governação era o PS.

À esquerda, as estratégias começaram a ser realinhadas. Jerónimo de Sousa e Catarina Martins repetiram ad nauseam que a geringonça era irrepetível e Bloco e PCP começaram, progressivamente, a distanciar-se do PS. Podia ser um problema para António Costa, mas deixou de o ser a partir do momento em que Rui Rio anunciou a sua disponibilidade para dar a mão ao PS. Fechava-se uma porta, abria-se uma janela. Se tudo corresse mal até 2019 - ou seja, se os socialistas não conseguissem chegar à maioria absoluta - António Costa podia continuar no poder.

A realidade tem, no entanto, vindo a demonstrar que o PS não tem na liderança de Rui Rio apenas uma janela aberta. Tem um portão escancarado por onde pode entrar e sair, sempre que quiser.

Rui Rio, já o escrevi, teria sempre uma tarefa difícil pela frente. Só não precisava de a tornar ainda mais complicada. Que a bancada do PSD é, neste momento, a maior força da oposição em Portugal, disso ninguém tem dúvidas. O problema é que é oposição interna, numa novela mexicana que é também culpa de Rio.

A começar pelo enorme erro de casting chamado Fernando Negrão. Um líder parlamentar escolhido pelo líder do partido, fragilizado por uma eleição que teve um resultado medíocre e, sobretudo, incapaz de ter mão nos deputados que lidera. Onde Negrão parece ser muito forte é no surrealismo das declarações públicas que faz.

A pérola mais recente chegou esta semana. Depois de ter sido desautorizado por Rui Rio, pela forma como o PSD votou ao lado do CDS no projeto lei que pretende acabar com a taxa adicional dos combustíveis, Negrão respondeu que "a direção (do partido) é uma entidade abstrata, que não emite opiniões". Acho que, sobre abstracionismos, estamos conversados.

Que o líder de uma bancada parlamentar não ache útil alinhar estratégias com o presidente do partido, já é grave. Pior ainda é percebermos agora que o próprio presidente do partido também não sentia essa necessidade. Depois de um conjunto de episódios que só contribuíram para a descredibilização do PSD, Rui Rio e Fernando Negrão decidiram almoçar para acertar agulhas. Se não fosse sério, seria para rir.

O segundo erro - bem mais profundo - tem a ver com a falta de uma estratégia. Às segundas, quartas e sextas, o partido é de centro esquerda. Às terças e quintas é de centro direita. Tão depressa defende aumentos para a função pública e a restituição das carreiras dos professores, como a seguir está a defender que o país não tem dinheiro para tudo e que é preciso rigor nas contas públicas.

Do ponto de vista da comunicação, reina a anarquia. Rima com democracia, mas são coisas diferentes. Sempre que alguém escolhido por Rui Rio fala, direta ou indiretamente, vincula o partido. As batalhas campais internas não são para vir para a praça pública com "fontes da direção" a desautorizar a liderança da bancada. Parece básico, não parece? Para o PSD atual não é.

E é com as tropas neste estado que Rui Rio se prepara para um combate que, em qualquer circunstância, nunca seria fácil. Porque travar um Primeiro-ministro que apresenta os resultados que apresenta, seria sempre complexo. Porque a limpeza que quer fazer internamente no partido, colocaria, obviamente, todos os seus adversários à defesa. E porque o feitio que tem, nunca lhe facilitou a vida e também não seria agora, como presidente do maior partido da oposição, que tudo ficaria mais simples.

Aquilo de que estamos a falar neste momento é de uma espécie de implosão. É como se o PSD estivesse a fazer tudo para perder as eleições do próximo ano. A continuar assim, António Costa pode dormir descansado. Porque sabe que, sempre que existir um desentendimento na geringonça, estará lá o PSD, com um desentendimento muito maior. Sempre que surgir uma polémica com algum membro do Governo, estará lá o PSD, com uma polémica interna pior.

Nisto, Rui Rio tem grandes responsabilidades, mas não é o único responsável. Todos os que estão mais preocupados com as guerras intestinas da pequena política do que com o país têm culpa neste estado de coisas. Ainda assim - e só para relembrar - Rui Rio é o líder e os líderes também se revelam em situações extremas.

É por isso que, António Costa pode até ter muitos amigos, mas nenhum tem sido tão bom como o PSD.

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