Cinco erros que podem impedir a maioria absoluta do PS

Em 2015, António Costa perdeu umas eleições que, um ano antes, estavam ganhas. Depois de afastar António José Seguro (gesto que nunca entusiasmou o eleitorado), as expectativas em torno de António Costa eram mais do que altas. Eram elevadíssimas.

Daí para a frente, foi sempre a descer. De episódio em episódio, de erro em erro, até à derrota final, frente a um Pedro Passos Coelho que personificava a austeridade dos últimos quatro anos. Em 2015, António Costa conseguiu fazer o mais difícil: perder as eleições e, apesar disso, tornar-se primeiro-ministro.

A pouco mais de um ano das legislativas de 2019, ninguém acredita numa derrota do PS (acho que nem mesmo Rui Rio). Os resultados alcançados pela atual solução de governo estão a ser muito mais capitalizados pelo PS do que pelo PCP ou pelo Bloco de Esquerda e, por isso, as expectativas em torno de António Costa voltam a ser muito elevadas. Tanto que a maioria absoluta parece estar já ali... é só esticar um bocadinho mais a mão.

Mas, tal como há três anos, os riscos são, também eles, muito elevados. E, se o PS não aprendeu nada com o que se passou, corre o risco de ver a história repetir-se. Talvez até ganhe as eleições, mas arrisca-se a desperdiçar uma maioria absoluta.

O primeiro erro tem que ver com a forma como o PS tem lidado com o tema da corrupção. O "elefante" José Sócrates pode até já ter saído da sala, mas não o fez sem deixar um rasto de vidros partidos espalhados pelo chão. Se o tema já era importante antes de Sócrates, tornou-se ainda mais urgente depois dele. Não perceber isso, meter a cabeça na areia e adiar medidas de combate à corrupção é cometer um erro que pode sair muito caro.

Agora, mais do que nunca, o PS tem a obrigação de mostrar ao país que uma andorinha não faz a primavera. Que a vergonha que sente por Sócrates e por Pinho tem uma consequência prática no que ainda falta fazer para prevenir e combater a corrupção. E que esse trabalho tem de ser feito com a esquerda e com a direita. Se há matéria em que o PS devia assumir o papel de partido charneira, é esta. E, até agora, não o fez.

O segundo erro é o da arrogância. Desvalorizar os casos ligados à ética e a transparência na política pode custar caro ao partido. Dos deputados que viajam duplamente subsidiados aos lapsos legais de ministros e secretários de Estado, o PS tem a obrigação de saber que tudo isto - e o muito mais que ainda possa surgir H provoca desgaste eleitoral. E que estes assuntos não se "matam" com umas palavras de circunstância do primeiro-ministro. É preciso ser-se consequente e governar pelo exemplo.

O terceiro erro é subestimar a oposição e os partidos à esquerda. Olhar para o PSD e ver apenas um partido fragmentado é desvalorizar a capacidade de mobilização que qualquer partido com apetência pelo poder tem, quando se aproximam atos eleitorais. Achar que o CDS é apenas um partido com a mania das grandezas é subestimar o impacto eleitoral de Assunção Cristas junto do eleitorado. E, sobretudo, encarar o Bloco de Esquerda e o PCP como dois partidos que estão hoje aprisionados a esta solução de governo é ignorar a capacidade de mobilização que eles têm na rua e o quão contranatura esta aliança com o PS tem sido para eles.

Um quarto fator que pode impedir o Partido Socialista de chegar à maioria absoluta - e, neste caso, até perder as eleições - tem que ver com a forma como António Costa e o governo lidam com tragédias como as que aconteceram em 2017. Por melhores que sejam os resultados económicos, por mais brilhante que seja Mário Centeno no Eurogrupo, por mais eficiente que seja a gestão da geringonça, se o Estado falha às pessoas, é o governo que falha. No ano passado, morreram mais de cem pessoas vítimas dos incêndios em Portugal. Resultado da descoordenação de meios, de um planeamento mal feito e de uma enorme incapacidade política em responder a fragilidades que estão detetadas há vários anos, mas que este governo - como tantos outros - não foi capaz de debelar. Em 2018, não deve haver um único português que se considere mais seguro, que acredite que os erros do passado não se estão a repetir e que, se o inferno voltar a descer à floresta, o país está mais bem preparado para o enfrentar. Marcelo Rebelo de Sousa já fez todos os avisos.

Por fim, porventura o erro mais transversal do Partido Socialista. O de comunicação e gestão de crise. A forma atabalhoada, incoerente e, por que não dizê-lo, amadora como o partido e o governo lidam com as situações difíceis tem tido custos elevados. O exemplo mais óbvio será a forma como o PS lidou com os casos de José Sócrates e de Manuel Pinho, mas há tantos outros que não cabem todos neste texto. Tipicamente, os partidos políticos desvalorizam a forma como comunicam quando pressentem que o poder está garantido. A história já provou várias vezes que é um dos maiores erros que se pode cometer. E o PS, como fica demonstrado, já o cometeu.

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