Até ao fim do mundo

O som da água a cair do chuveiro mistura-se com o da rádio, numa estranha sinfonia que não me deixa perceber se ainda estou a dormir ou se já estou preparado para mais um dia de notícias. Estranho o jingle dos "sinais", que já me tinha desabituado de ouvir àquela hora, mas fico à escuta, sem perceber se entrou por engano ou se vou voltar a ser surpreendido pelo Fernando. Sempre o Fernando. Não há que enganar: a voz tem a melodia de sempre, as palavras escritas continuam a sair-lhe ditas como se fossem um improviso permanente, sílaba a sílaba, com a cadência certa de quem fala comigo ao ouvido e mexe com sentimentos que eu nem sabia que tinha. Morreu um dos nossos. E o Fernando não iria deixar passar esse sinal em claro.

Deixem-me falar-vos da morte. Se há coisa de que me tenho habituado a falar nos últimos tempos é da morte. Das minhas pessoas, da minha profissão, da minha paixão. Permitam-me usar este espaço, nesta semana, para vos falar do que tem morrido em mim todos os dias mais um bocadinho e que eu não posso permitir que morra. Do que tem morrido em nós, sem que a maioria se aperceba do quão pobres estamos a ficar. Permitam-me falar-vos da morte do jornalismo ou, como mandam as regras, da alegada morte de uma profissão que por vezes vive, outras sobrevive.

Em quase 20 anos de jornalismo, nunca vivi um período auspicioso da profissão. Entre crises, reestruturações, despedimentos, falta de dinheiro, falta de gente e falta de condições para trabalhar, nunca soube o que foram os anos de ouro dos finais da década de 80, início da década de 90 do século passado, quando um homem chamado Emídio Rangel acreditou naquilo a que muitos chamaram uma utopia e fundou a TSF, para cinco anos depois dar corpo à SIC. Mais atrás, um outro homem, Francisco Pinto Balsemão, tivera a coragem de enfrentar uma ditadura e a resiliência para lhe resistir, em nome de um Portugal mais democrático.

Tenho a sorte de ter trabalhado e de trabalhar em duas das redações que mais contribuíram para um Portugal democrático. De ser uma espécie de herdeiro de um legado que ainda luta por um jornalismo livre e ao serviço das pessoas. Tenho a sorte e o orgulho de trabalhar na TSF que Emídio Rangel fundou a 29 de fevereiro de 1988 - a rádio que, há 30 anos, vai ao fim da rua e ao fim do mundo para fazer a pergunta que, independentemente da resposta, lhe dará, a si, uma opinião. É verdade que hoje, nós como quase todos, temos dificuldade em ir ao fim da rua, quanto mais ao fim do mundo. Mas não é menos verdade que a luta não acabou. Recomeça todos os dias.

O jornalismo não está condenado à morte. Repito esta frase para mim próprio, vezes sem conta, sempre que dou por mim a verbalizar o contrário. O jornalismo só está condenado à morte se quisermos. Nós, jornalistas, eles, os patrões dos media, e você, que chegou a este parágrafo. Bem sei que a digitalização mudou o paradigma da comunicação social, que as redes sociais vieram revolucionar a forma como as pessoas comunicam e se informam, mas o jornalismo não tem de estar condenado à morte. Nem pode. Pelo contrário.

Talvez não seja possível perceber isto agora. Talvez se sinta mais interessado no que tem para contar a sua vizinha do 5.º esquerdo, que escreve uns posts muito assertivos no Facebook, do que pelo jornal que tem na mão ou pelo Telejornal das oito. Talvez hoje cada um de nós se sinta um pouco jornalista. Quanto mais "amigos" tivermos, maior é a nossa "tiragem". Quanto melhor for a câmara do nosso telemóvel, melhor é o vídeo que podemos partilhar. Quanto mais ácidos forem os pensamentos que partilhamos, mais comentários os outros fazem e mais aberto fica o algoritmo do nosso Facebook. Talvez tudo isto seja verdade hoje, mas é uma verdade que não resiste aos factos e dificilmente resistirá a um regime democrático. Nestes dias estranhos de hoje, quem pergunta? Quem traz a guilhotina da memória? Quem faz a triagem entre propaganda e informação? Quem foge ao controlo dos estudiosos da comunicação truncada e modelada à medida do que as redes vão digerir melhor?

Hoje, mais do que nunca, o jornalismo - o bom jornalismo - é imprescindível para mantermos viva a nossa democracia e torná-la mais madura. Hoje, mais do que nunca, num mundo cada vez mais confuso e manipulador, o jornalismo é o único capaz de fazer a pergunta que lhe permitirá a si dar uma resposta informada. Hoje, mais do que nunca, os jornalistas têm de perceber que não podem ficar indiferentes à realidade e, sobretudo, não podem abdicar da ética e da deontologia que aprenderam nas secretárias da faculdade. Hoje, mais do que nunca, os patrões dos media têm de saber estar à altura da responsabilidade democrática que é gerir um órgão de comunicação social. E hoje, mais do que nunca, os governos têm de perceber, de uma vez por todas, que sem uma comunicação social livre e independente não haverá democracia.

O que se abre perante nós, hoje, não é uma janela, é uma porta escancarada para fazermos mais e melhor jornalismo. E essa missão também precisa de si. Precisa de que se lembre que sem a pergunta não há resposta. E sem jornalismo não há informação séria. Por mais que lhe jurem no Facebook que o mundo acaba no dia 22 de maio (ou noutro dia qualquer, é só escolher) ou que alguém descobriu que as Torres Gémeas, afinal, caíram por obra de uma seita desconhecida, com infiltrações no governo do Burkina Faso, dono de uns lingotes de outro escondidos numa gruta oculta na linha azul do metro de Manhattan. Sem cão de guarda não há tesouro. E não há maior tesouro do que a verdade.

No passar dos minutos, a água do chuveiro já se transformou em vapor e a dos meus olhos em lágrimas, porque perdi um dos meus e o Fernando Alves tocou-me no ponto fraco. A magia da rádio. Já ouviu falar? Nos seus 30 anos, a TSF perdeu um dos maiores mágicos que tinha. É dele que fala o Fernando. Chama-se Herlander Rui. Talvez um dia o encontre lá. No fim do mundo.

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