"Fuck them"

O conceito de Verão Quente mudou em 2006. Às elevadas temperaturas - normais para aquela altura do ano - juntaram-se os inevitáveis incêndios que voltavam a consumir milhares de hectares de floresta e ainda o BCP. O maior banco privado português, que havia falhado, na primavera, uma OPA sobre o BPI, tinha em curso uma guerra pelo poder. De um lado estava o fundador do banco, Jardim Gonçalves. Do outro, o seu ex-delfim, Paulo Teixeira Pinto.

O banco ardia em lume brando há vários meses e não faltavam pessoas disponíveis para atirar cada vez mais gasolina para a fogueira. Uma dessas pessoas era o empresário José Berardo. Joe para os amigos, comendador para os jornalistas.

A história do self-made man sempre "vendeu" bem. O madeirense que veio do nada, que emigrou para a África do Sul e fez fortuna - ainda que nunca ninguém tenha percebido exatamente como - tinha, ainda por cima, uma maneira engraçada de falar. Ao português que mesclava a pronúncia madeirense com o inglês sul-africano, Berardo juntava ainda um guarda-roupa muito próprio, típico de um empresário que veste sempre de igual para não perder tempo a pensar no outfit que vai ter de usar todos os dias.

Durante aqueles meses de 2006, o comendador fez as delícias das audiências televisivas, desdobrando-se em entrevistas que lhe serviam o duplo propósito de alimentar o ego e tentar convencer os acionistas do BCP a apoiar Paulo Teixeira Pinto e afastar, definitivamente, Jardim Gonçalves do poder.

Mas, para lá chegar, esta estratégia, por si só, nunca seria suficiente. Berardo precisava de arranjar aliados e, sobretudo, de conquistar o poder acionista dentro do banco, de forma a poder ter uma palavra cada vez mais decisiva nas assembleias gerais.

O empresário madeirense, que começou por ter uma pequena participação no banco, foi aumentando o capital ao longo dos anos 2006 e 2007. Em plena crise do BCP, e com as cotações hiperinflacionadas, Berardo mais do que duplicou a sua participação, chegando mesmo aos 7%. O "como" não será, seguramente, apenas mais um pormenor desta história, mas o diabo, esse, esteve sempre lá.

Para alimentar esta espécie de brincadeira de adultos, Berardo financiou-se onde pôde. Ou, neste caso, onde tinha "amigos". A começar pelo BCP - pois claro -, seguindo-se o BES - what else? - e a Caixa Geral de Depósitos, onde, à época, pontificavam nomes como Carlos Santos Ferreira, Armando Vara ou mesmo Carlos Costa, o atual governador do Banco de Portugal, que não viu, não esteve, não sabia.

Foi nestes três bancos que Berardo se armou até aos dentes para travar a guerra de poder que estava em curso no BCP. Empréstimos de milhões de euros, que serviam para comprar ações do banco e que tinham como colateral as próprias ações. Como se de ouro se tratasse. Como se nenhum dos administradores que autorizaram estes empréstimos soubesse o risco que estavam a correr. Eles não - nós.

Uma das tarefas mais difíceis para um jornalista de economia, na altura, era conseguir explicar às pessoas - e, às vezes, à própria redação - porque é que a guerra no BCP era tão importante para o país. Que não se tratava apenas de uma novela cujo guião continha todos os ingredientes para ser um sucesso de audiências: dinheiro, traição, poder, teias de influência, maçonaria e Opus Dei. O que se passou no BCP entre 2006 e 2007 era importante sobretudo porque estava em curso a destruição do maior banco privado português. Com todos os efeitos sistémicos que isso teria para o país.

Treze anos depois, é hoje possível termos uma noção mais clara da dimensão dos estragos. Não foram apenas a instabilidade acionista que se seguiu, a ajuda que o Estado teve de dar ao banco - e que, entretanto, já foi paga -, os milhões de euros em crédito malparado que a atual administração ainda hoje anda a limpar. A consequência da irresponsabilidade de pessoas como José Berardo, mas sobretudo de quem lhe emprestou dinheiro de olhos fechados - ou bem abertos, depende da perspetiva -, é um calote de 980 milhões de euros a três dos mais importantes bancos portugueses: a Caixa, o Novo Banco e o BCP. Fora todos os outros bancos a quem Berardo também continua a dever dinheiro.

Não será preciso lembrar que a Caixa, o Novo Banco e o BCP custaram-nos - e continuam a custar - muito dinheiro. Que são três dos mais importantes bancos do sistema financeiro português, a quem o Estado teve que dar a mão para não fecharem as portas. Mas talvez seja útil recordar que muitos dos responsáveis por este "assalto" continuam a exercer atividade na banca. Que nenhum impedimento caiu sobre eles. Não será de mais sublinhar que houve quem fosse promovido: Vítor Constâncio - o governador do Banco de Portugal à época, a quem agora deu um ataque de amnésia - subiu a vice-presidente do Banco Central Europeu. Carlos Costa - o homem que não viu, não soube, não estava - passou de regulado a regulador.

Sobra-nos o próprio Joe Berardo. O investidor multimilionário que continua a passear-se pelas suas quintas e pelo museu onde expõe algumas das obras de arte mais caras do mundo, que aparentemente só tem em seu nome uma garagem no Funchal. A estratégia tem tanto de velha como de conhecida. E se é estranho, em 2019, continuarmos a contar histórias destas, é, no mínimo, revoltante perceberemos que ainda há no país muitos Berardos a gozar connosco. Citando o próprio comendador: "Fuck them."

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